A Religiosidade Verdadeira

domingo, Janeiro 17th, 2016

Texto-Base: Miquéias 6: 1 – 8

Falar de religiosidade nos dias de hoje pode ser um tiro no próprio pé. Mas, como nem só de palavras doces vivem aqueles que buscam pregar a verdade bíblica nua e crua, conosco também não será diferente. Como diz o outro, são ócios do ofício.

Pois bem, para começar nossa “brincadeira”, precisamos esclarecer as diferenças entre religião e religiosidade. Enquanto que a primeira se refere a “expressão da crença e da reverência do homem para com o criador e governante do universo”, o último significa “aquele sentimento ou condição interior que leva um indivíduo a crer em um ser superior, em quem se pode confiar, e a quem se deve obedecer”. Resumindo, a religião é a expressão e a religiosidade, a motivação.

Com relação ao cristianismo, que é o nosso foco, uma palavra define muito bem como sua religiosidade se distingue das outras religiões. Essa palavra é santidade.

As Concepções erradas de santidade.
Como bem disse Dr. Joel Beeke (Monergismo), santo e santidade são termos que levam a uma considerável concepção errada. Para alguns, a palavra santo parece arcaica – imaginam algo antiquado e retrógrado –. Para outros, santidade cheira a legalismo moralista, ou seja, demanda uma longa lista de proibições, que pode até variar de pessoa para pessoa, de grupo para grupo, mas sempre existirá onde quer que a santidade esteja. Ainda para outros, a santidade é associada com uma repugnante atitude de “sou mais santo que você”. Eles a vêem como uma ferramenta desprezível com a qual se implementa a superioridade arrogante. Finalmente, para alguns, santidade denota uma perfeição inatingível. Eles vêem a santidade como uma doutrina desalentadora que não prega nada senão o pecado e exige uma perfeição radical e inatingível.

Mesmo tendo que concordar que há certas verdades nas concepções acima, todas elas não conseguem expressar o verdadeiro conceito de santidade. De acordo com o uso original da palavra, santidade diz respeito ao ser separado do uso comum secular para o propósito de ser devotado a Deus. Mas o que significa ser separado? Podemos dizer que temos duas respostas para a mesma pergunta. A primeira diz respeito ao chamado para nos separarmos do pecado; enquanto que a segunda nos convoca para nos consagrarmos a Deus.

Estes dois conceitos – separação do pecado e consagração (ou separação) a Deus – compreendem a palavra santidade. Quando combinados, estes dois conceitos fazem a santidade muito compreensiva. De fato, a santidade cobre o todo da vida. Portanto, o chamado a santidade é um chamado exclusivo (todo nosso coração para Deus – Pv 23:26) e holístico (nossa vida inteira está envolvida – corpo e alma, tempo e eternidade).

1. O contexto de Miquéias 6.
Miquéias foi um camponês lavrador, oriundo de Moresete, uma pequena aldeia a sudoeste de Jerusalém, mas que era um porto avançado de fronteira com a capital do reino do sul. Foi contemporâneo de Isaías e profetizou por cerca de 55 anos, compreendendo os reinados de Jotão, Acaz e Ezequias em Judá.

Depois do reinado de Uzias (52 anos), houve um período de prosperidade econômica comparativa, ocasionada em parte pelo fato de que Judá passou a controlar o comércio entre o interior e o porto de Elate, ao sul (cf. 2 Reis 14.7). Essa prosperidade concentrou riquezas e seu consequente poder nas mãos de alguns poucos privilegiados, provocando injustiças sociais que o profeta atacou decididamente (Miquéias 2.1-2).

Os principais pecados denunciados pelo ministério do profeta Miquéias foram:

  1. A idolatria (1.1-7; cf. 2 Reis 16.10-19);
  2. A cobiça dos nobres, que iam se apossando dos campos dos pobres (2.2);
  3. A desconsideração para com os direitos de herança (2.4,5; cf. Lv 25.8ss; Núm 27.11; Dt 27.17); as viúvas acabavam perdendo suas residências (2.9; cf. Ex 22.2; Dt 27.19; Is 1.17);
  4. Sacrifícios humanos – O pior de todos os pecados denunciados por Miquéias (6.7; cf. 2Rs 16.3,4).

Mesmo com tudo isso, os judeus continuavam realizando sacrifícios, fazendo orações e praticando sua religião, mesmo que corrompida com vários elementos pagãos. Uma religiosidade falsa e aparente, apenas.

Miquéias, portanto, foi um homem corajoso, dotado de fortes convicções e de rara fé pessoal. Possuía grande simpatia para com os pobres. O que mais o perturbava eram as injustiças sociais prevalecentes em seus dias. Tais injustiças, segundo ele ensinou, só poderiam ser apagadas através de um reavivamento religioso. Para o profeta, pois, a fé em Deus deve resultar em justiça social e santidade pessoal, porquanto Jeová é justo e soberano.

2. A religiosidade verdadeira.
A passagem de Miquéias 6.1-8 nos traz, ao nosso ver, o que há de mais prático sobre o conceito de verdadeira religiosidade, que vai muito além do legalismo e formalismo pregados nas igrejas neopentecostais, bem como em muitas igrejas de periferia e do interior.

O versículo 8 é particularmente significativo porque resume em poucas palavras todo o conceito de santidade e religiosidade verdadeiras, ao longo das Escrituras. O profeta mostra o que é religiosidade verdadeira aos olhos de Deus, e o faz na forma de três elementos essenciais.

1. Que pratiques a Justiça. Um dos principais temas da Bíblia, a justiça nada mais é do que “fazer o que é certo” e, mais especificamente, ter relacionamentos corretos, tanto com Deus como para com o ser humano. Praticar a justiça significa honrar a Deus e observar seus mandamentos, mas também inclui respeitar e defender a vida, a integridade e os direitos dos semelhantes, quaisquer que sejam eles.

2. Que ames a misericórdia. Misericórdiaé um sentimento de compaixão, despertado pela desgraça ou miséria alheia. A expressão misericórdia tem origem latina, é formada pela junção de “miserere” (ter compaixão), e “cordis” (coração). “Ter compaixão do coração”, significa ter capacidade de sentir aquilo que a outra pessoa sente, aproximar seus sentimentos dos sentimentos de alguém, ser solidário com as pessoas. A implicação do texto bíblico é que aquilo que fazemos aos que nos cercam é importante para Deus e tem profundas consequências para a vida espiritual. Não existe na Bíblia uma fé divorciada dos deveres de solidariedade, compaixão e simpatia para com o próximo.

3. Que andes humildemente na companhia do teu Deus. A palavra humildade vem do hebraico “enu” – (tsana) – e traz o significado de “modesto”, “simples”, “humilde”. Deus não mantém relacionamento com aquele que é soberbo, mas tem prazer em conviver com o humilde (Salmos 139.6). A palavra grega pra humildade é “tapeinos”, que dá origem a nossa palavra “tapete”, mas com o sentido daquele que fica na entrada das casas para limpar nossos pés. Aqui a concentração é total e de modo especial em Deus. Essa última exortação ensina que a principal atitude que devemos ter diante do Todo-Poderoso é a humildade, ou seja, o reconhecimento das nossas próprias limitações, fragilidade e mortalidade, que contrastam com a grandeza e majestade do Rei dos reis.

Após tudo o que refletimos acima, chegamos a seguinte conclusão sobre a religiosidade verdadeira no texto do profeta Miquéias:

  1. É uma religiosidade pessoal, evidenciado pelo vocativo “ó homem” e pelo uso da segunda pessoa no singular. Ou seja, cada ser humano é convocado para abraçar os melhores valores e comportamentos para a sua vida, espontanea e voluntariamente, atraído por aquilo que é bom, daquilo que Deus requer nas Escrituras Sagradas;
  2. É uma religiosidade relacional, que volta-se para o outro, seja ele Deus, ou o nosso próximo. É uma religiosidade que se manifesta e se enriquece no relacionamento caloroso e altruísta com outras pessoas;
  3. É uma religiosidade ética. Religião é mais que moralidade, mas se não incluir um elemento ético, não pode ser religião verdadeira. A religiosidade bíblica não é meramente mística ou contemplativa, mas engajada, concreta; não é relativista, mas tem noções claras de certo e errado, acredita em valores absolutos;
  4. Finalmente, é uma religiosidade teocêntrica. Deus é tanto o seu fundamento, o seu ponto de partida, quanto o seu alvo mais elevado. Dele vem a motivação, a sabedoria e as forças para os melhores atos que podemos praticar. Ele é o objeto supremo da nossa devoção. A ele temos de prestar contas das nossas ações!

#QueDeusNosTorneVerdadeirosReligiosos

Por Linaldo Lima
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