O Gracioso Deus dos Esquisitos

domingo, março 8th, 2015

Texto Bíblico: Atos 10: 1 – 34.
“Agora eu entendo que verdadeiramente Deus é imparcial; todos os que o temem e fazem o que é certo lhe são aceitáveis, sem importar a qual povo pertencem” (At 10: 34).

o-gracioso-deus-dos-esquisitosDando sequência às reflexões sobre a Graça de Deus, hoje analisaremos as histórias de Cornélio e do Bom Samaritano para que possamos avaliar alguns pontos chocantes sobre a maravilhosa graça de um Deus que enxerga completamente diferente de nós. Vamos trabalhar, então!

Antes de Cornélio ser aceito no corpo de Cristo, Pedro tinha que aprender uma lição. Os judeus, essencialmente, criam que Deus não tinha nada a ver com os gentios, que Seus favores e milagres eram única e exclusivamente para os judeus. Eles criam que Deus só considerava a eles, e que as outras nações estavam fora de sua misericórdia e privilégios. Algumas vezes até chegavam a dizer que não se devia ajudar a uma mulher gentia a dar à luz, porque isso seria simplesmente trazer outro gentio ao mundo. Deus tinha que tratar Pedro antes deste receber o chamado para visitar Cornélio.

Para isso, Deus recorreu a uma visão sobre os animais considerados “impuros” pela lei levítica (Lv 11). Um grande lençol desceu do céu, cheio de mamíferos, répteis e aves como: porcos, camelos, coelhos, abutres, corvos, corujas, cegonhas, morcegos, formigas, besouros, ursos, lagartos, camaleões, ratos, cobras, etc. Para Pedro e qualquer judeu, tais alimentos eram abomináveis. Após a visão, um grupo de gentios “impuros” que desejava se tornar discípulos de Jesus visitam o apóstolo.

Os judeus tinham leis muito restritas a respeito dos alimentos, conforme Levítico 11. Em linhas gerais, só podiam comer animais ruminantes que tivessem unhas fendidas. Todos os outros se consideravam impuros e proibidos. Por isso que até hoje alguns grupos de cristãos se perguntam se podem ou não comer determinado alimento… Porque acabam misturando as leis da Graça com as leis judaicas.

Inapropriados… Desqualificados… Anormais… ESQUISITOS. Vários termos foram utilizados até então (por vários teólogos) para descrever os alimentos considerados “impuros” para os judeus, tais como “inapropriados”, “desqualificados”, “anormais”, dentre outros. Mas o conceito que melhor definiu a essência das leis do Antigo Testamento acerca da impureza foi o de “esquisitice”, dado por Philip Yancey (1999).

A dieta dos israelitas escrupulosamente excluía qualquer anormalidade ou animais “esquisitos”, e o mesmo princípio se aplicava aos animais “puros” utilizados no culto. Nenhum devoto podia trazer um cordeiro aleijado ou defeituoso para o templo, pois Deus queria animais sem mácula. Depois de Caim, as pessoas tinham que obedecer as exigências exatas de Deus ou teriam suas ofertas rejeitadas. Deus exigia a perfeição; Deus merecia o melhor. Esquisitices, não.

Entretanto, uma coisa é chamar os animais de impuros e outra, muito diferente, é chamar as pessoas de impuras. Pois é, no Antigo Testamento separava o povo de Deus, fundamentalmente não no prestígio, mas na “pureza” ou “santidade” (Lv 21: 17 – 21).

Em resumo, as pessoas com corpos danificados e linhagem familiar prejudicada (bastardos) não se qualificavam para o momento das ofertas no templo. Mulheres menstruadas ou que tivessem parido, pessoas com enfermidades da pele ou feridas supuradas, alguém que tivesse tocado um cadáver – todos esses eram declarados cerimonialmente impuros.

Nem gentio… Nem escravo… Nem mulher. Tal classificação parece até bizarra, mas esse era o ambiente do judaísmo. Todos os dias os homens judeus começavam suas orações matinais dando graças a Deus “que não” me fez gentio… que não me fez escravo… que não me fez mulher. Quando Pedro concordou em visitar a casa do centurião Cornélio, foi logo mandando seu “cartão de visitas”: “Vocês têm conhecimento de que para um judeu ter uma associação menos formal com alguém que pertence a outro povo, ou mesmo visita-lo, é algo que não deve ser feito…” (At 10: 28a – Bíblia Judaica Completa). Se tivesse parado aqui, nada de anormal teria sido dito pelo apóstolo. Mas Pedro continuou: “…Entretanto, Deus me mostrou que não devo chamar nenhuma pessoa de vulgar ou impura” (At 10: 28b).

Na Palestina dos tempos de Jesus, o povo judeu era socialmente separado por castas (mulheres, estrangeiros, escravos e pobres). Os fariseus, por exemplo, ditavam regras precisas para a manutenção da pureza: nunca entrar na casa de um gentio, nunca jantar com pecadores, não trabalhar aos sábados, lavar as mãos sete vezes antes de comer.

Todos nós somos esquisitos. Quando a fama de Jesus se espalhou, e cresceram-se os rumores de que ele podia ser o Messias tão esperado, os judeus fervorosos ficaram mais escandalizados do que animados. Ele tinha contato com os leprosos (impuros), permitiu que uma mulher de má reputação lavasse seus pés e os enxugasse com os cabelos, jantava com cobradores de impostos (um deles era até discípulo mais próximo), bem como era frouxo com as regras de purificação ritual e guarda do sábado.

Além disso, Jesus entrava em território gentio e se envolvia com gentios. Ele elogiou um centurião romano por ter mais fé do que qualquer um em Israel, curou um samaritano mestiço de lepra e teve uma longa conversa com uma mulher samaritana. O que essa atitude de Jesus traz de ensinamento? Em essência, Jesus cancelou o princípio de “esquisitice” do AT, substituindo-o pela nova regra da graça: “Todos nós somos esquisitos, mas Deus nos ama mesmo assim”.

Com atitudes que comprovavam essa afirmativa, Jesus ia paulatinamente desmantelando a escada da hierarquia que marcava a aproximação de Deus. Convidou pessoas defeituosas, pecadores, estrangeiros, gentios – os impuros! – para a mesa do banquete divino. O ponto que Jesus queria destacar era: aqueles que são julgados indesejáveis por todos são infinitamente desejáveis para Deus. Ou seja, todos nós somos esquisitos, mas Deus nos ama mesmo assim.

O exemplo do samaritano (Lc 10: 30 – 36). Antes de tudo, analisemos a cena dessa parábola. O caminho de Jerusalém a Jericó era reconhecidamente perigoso, com vários pontos baixos e altos, e muitos assaltos durante o percurso. Geralmente, os turistas nunca passavam sozinhos por essa estrada. Portanto, quando Jesus contou a história estava se referindo a um fato que ocorria constantemente nesse caminho de Jerusalém a Jericó.

Outro ponto que precisamos analisar são os personagens:

a) O viajante. Como dito anteriormente, as pessoas só passavam por esse caminho em caravanas, justamente pela fama. O viajante da parábola atravessou sozinho, dando a conotação de uma pessoa descuidada;

b) O sacerdote. Este se apressou a passar de lado do homem ferido, por pensar que ele estava morto e, se o tocasse, perderia seu turno de serviço no Templo (Nm 19: 11). Para o sacerdote, o templo e sua liturgia significavam mais do que a dor do homem;

c) O levita. Tudo indica que este se aproximou do moribundo, mas como alguns bandidos se fingiam de feridos para atrair a atenção dos passantes, o levita preferiu primar pela segurança. Não se arriscava a ajudar ninguém;

d) O samaritano. Duas coisas importantes precisam ser destacadas sobre esse homem: (1) Seu crédito era bom – O hospedeiro estava disposto a confiar nele. Talvez não tivesse muito conhecimento teológico, mas era honrado; (2) Ele esteve disposto a ajudar, mesmo sozinho – O amor de Deus estava no coração do samaritano. O homem a quem os ortodoxos desprezam é o que ama o seu próximo.

Nessa história Jesus “zombou” de seu auditório original apresentando dois religiosos profissionais que se desviaram da vítima do assalto, não arriscando a contaminar-se com um aparente defunto. O mestre fez herói um samaritano desprezado pelos mais ortodoxos da religião judaica.

Destruindo as categorias judaicas (Lucas 8). Em seus contatos sociais, Jesus acabou também com as categorias judias de “puros” e “impuros”. As leis levíticas advertiam contra o contágio: contatos com doentes, gentios, cadáveres, certos tipos de animais ou até mesmo o contato com mofo podiam contaminar uma pessoa. Jesus inverteu o processo: em vez de ficar contaminado, tornou a outra pessoa sadia. O louco nu não contaminou Jesus; foi curado. A pobre mulher com fluxo de sangue não envergonhou Jesus nem o tornou impuro; ela se afastou sadia. A menina morta de doze anos de idade não contaminou Jesus; foi ressuscitada.

Para concluir, usando esse último exemplo de Jesus, nós mesmos podemos ser agentes da santidade de Deus, uma vez que Ele habita em nós. Ou seja, podemos passear como Jesus, no meio de um mundo impuro, buscando meios de ser uma fonte de santidade. Os doentes, aleijados, homossexuais, prostitutas, lésbicas e afins não são avisos vermelhos de contaminação, mas receptores em potencial da misericórdia divina. Somos chamados para estender essa misericórdia, para ser transmissores da graça, e não para evitar o contágio.

Assim como Jesus, podemos ajudar o “impuro” a se tornar limpo!

Por Linaldo Lima
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BIBLIOGRAFIAS:

1. STERN, David H. Bíblia Judaica Completa, São Paulo-SP: Vida, 2010;

2. YANCEY, Philip. Maravilhosa Graça, São Paulo-SP: Vida, 1999;

3. BARCLAY, Willian. Lucas; Atos. Buenos Aires, Argentina: La Aurora, 1983;

4. JAMES, Kim. Bíblia de Estudo Atualizada. Versão KJA. 2001-2011 v1. 2 – Disponível no aplicativo Bible Analyser 4.

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