As Ordenanças da Igreja – Parte 3 – A CEIA DO SENHOR

sábado, agosto 25th, 2012

Textos-Base: Mateus 26: 26-29; 1 Coríntios 11: 17-34

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Chegamos, então, a parte final desse estudo que se propõe a dirimir as principais dúvidas dos cristãos sobre as ordenanças da Igreja. Trataremos neste estudo sobre a Ceia do Senhor, que particularmente, considero como a “cereja do bolo” desse estudo.

Essa ordenança é apresentada por vários nomes nas Escrituras, os quais são mencionados resumidamente aqui. São eles:

  • (1) Deipnon Kuriakon, a Ceia do Senhor, nome derivado de 1Co 11: 20, cuja ênfase especial recai no fato de que a Ceia é do Senhor.
  • (2) Trapeza Kuriou, a mesa do Senhor, nome que se acha em 1Co 10: 21. Os gentios coríntios faziam suas ofertas aos ídolos e, depois de seus sacrifícios, assentavam-se para as refeições sacrificiais; e o que se infere é que alguns da igreja de Corinto achavam que lhes era permissível juntar-se a eles, entendendo que toda carne é igual. Mas Paulo contesta essa idéia, assinalando que sacrificar aos ídolos é o mesmo que sacrificar aos demônios, e que associar-se a essas refeições sacrificiais é equivalente a exercer comunhão com os demônios. Isso estava em absoluto conflito com o sentar-se à mesa do Senhor, confessar lealdade a ele e exercer comunhão com ele.
  • (3) Klasis tou artou, o partir do pão, expressão utilizada em At 2: 42. O nome pode igualmente achar sua explicação no partir do pão ordenado por Jesus.
  • (4) Eucharistia, ação de graças, e eulogia, bênção, termos derivados de 1Co 10: 16; 11: 24. Em Mt 26: 26, 27 lemos que o Senhor tomou um pão e abençoou, e tomou um cálice e deu graças.

1.

A Instituição da Ceia do Senhor.
Há quatro diferentes narrativas da instituição da Ceia do Senhor, uma em cada um dos Evangelhos, além de uma em 1Co 11. João fala do comer a páscoa, mas não menciona a instituição de uma nova ordenança. As referidas narrativas são independentes umas das outras e se complementam. O Senhor não terminou a refeição pascal antes de instituir a Ceia do Senhor. A nova ordenança estava ligada ao elemento central da refeição pascal. O pão, que era comido com o cordeiro, foi consagrado para um novo uso. Isso é evidenciado pelo fato de que o terceiro cálice, geralmente chamado de “cálice da bênção”, foi usado como segundo elemento na nova ordenança. Assim, a ordenança do Antigo Testamento foi transferida para o Novo da maneira mais natural.

Na verdade, houve a substituição do cordeiro pelo pão. O cordeiro pascal tinha significação simbólica, pois como todos os demais sacrifícios cruentos do AT, ele ensinava que ao povo que o derramamento de sangue era necessário para a remissão dos pecados. Além disso, ele tinha uma significação típica, apontando para o grande sacrifício futuro que seria apresentado na plenitude do tempo para tirar o pecado do mundo.

O todo-suficiente sacrifício de Jesus Cristo tornou todo e qualquer outro derramamento de sangue desnecessário. Além disso, pela morte de Cristo, a parede intermediária de divisão foi derrubada e as bênçãos da salvação foram estendidas ao mundo todo.

2. Significado dos Diferentes Atos e Termos.
Todas as narrativas da Ceia do Senhor fazem menção do partir do pão e Jesus indica claramente que isto se destinava a simbolizar o partir do seu corpo para a redenção dos pecadores. Porque Jesus partiu o pão na presença dos seus discípulos, a Teologia Protestante geralmente insiste em que esse ato deve ter lugar à vista do povo. Essa importante transação destinava-se a ser um sinal, e um sinal deve ser visível.

Jesus acompanhou seu gesto com palavras imperativas. Quando deu o pão aos seus discípulos, disse: “Tomai, comei”. E ao dar essa ordem, sem dúvida ele tinha em mente, não meramente o ato físico de comer, mas uma apropriação espiritual do corpo de Cristo, pela fé. De acordo com Lc 22: 19, o Senhor acrescentou as palavras: “fazei isso em memória de mim”. Após distribuir o pão, o Senhor também tomou o cálice, deu graças e disse: “Bebei dele todos” ou “Tomai-o e reparti-o entre vós” (segundo Lucas).

A utilização dos dois elementos deu a possibilidade de Jesus representar, vividamente, a ideia de que o seu corpo foi partido, que a carne e o sangue foram separados e que a ordenança nutri e vivifica a alma.

3.

As Realidades Significadas e Seladas na Ceia do Senhor.
Uma das características da ordenança é que ela representa uma ou mais verdades espirituais através de sinais perceptíveis e externos. Seguem, portanto, algumas verdades ensinadas pela ordenança da Ceia do Senhor:

  • a) É uma representação simbólica da morte do Senhor (1Co 11: 26), que é o fato central da redenção;
  • b) Simboliza também a participação do crente no Cristo crucificado. Na celebração da Ceia do Senhor, os participantes não ficam apenas olhando para os símbolos, mas o recebem e se alimentam deles (Jo 6: 53);
  • c) Representa o ato de fé que une o crente a Cristo, mas também o efeito desse ato, dando vida, força e alegria à alma. Precisamente como o pão e o vinho nutrem e fortalecem a vida corporal do homem, assim Cristo sustenta e revigora a vida da alma;
  • d) Simboliza também a união dos crentes uns com os outros. Como membros do corpo de Jesus Cristo, constituindo uma unidade espiritual, eles comem do mesmo pão e bebem do mesmo vinho (1Co 10: 17; 12: 13). Recebendo os elementos uns dos outros, eles exercem íntima comunhão uns com os outros.

A Ceia do Senhor não é apenas um sinal, mas também um selo. Nos dias atuais esta visão foi perdida por muitos que têm um conceito superficial dessa ordenança, e a consideram somente como um memorial de Cristo. Entretanto, a Ceia, com tudo o que ela significa, constitui um selo. O selo está vinculado às coisas significadas, e é um penhor da graça pactual de Deus revelada no sacramento.

A Ceia sela o grande amor de Cristo, que assegura ao crente participante da Santa Ceia que ele foi, pessoalmente, objeto desse amor incomparável. Além disso, ela afiança, ao crente que participa da ordenança, a certeza de que todas as promessas da aliança e todas as riquezas do oferecimento do Evangelho são suas, graças a uma doação divina, de maneira que ele tem um direito pessoal a elas. Continuando, essa ordenança garante que as bênçãos da salvação são suas, como possessão real.

Para finalizar este tópico, a Ceia do Senhor é um selo recíproco, uma vez que sempre que o crente participante da ordenança come o pão e bebe o vinho, professa sua fé em Cristo como seu Salvador, e sua fidelidade a Ele como o seu Rei, e solenemente se comprometem a uma vida de obediência aos seus divinos mandamentos.

4.

A Ceia do Senhor como Meio de Graça.
A ordenança da Ceia do Senhor, instituída pessoalmente pelo Senhor como sinal e selo, também é um meio de graça. Ela se destina a crentes e, daí, servem de instrumento para a originação da obra da graça no coração pecador. Pressupõe-se a presença da graça de Deus nos corações dos participantes. Jesus a ministrou unicamente aos seus seguidores; os que creram persistiam perseverantemente no partir do pão (At 2: 42, 43); e o apóstolo Paulo dá ênfase à necessidade de auto-exame antes da participação na Ceia do Senhor (1Co 11: 28, 29).

Como sempre costumo dizer, perguntar não ofende: A Ceia do Senhor confere graça, independente da condição espiritual do participante, ou não?

Para os católicos romanos, a Ceia é, antes de tudo, um sacrifício. É a “renovação incruenta do sacrifício da cruz”. Para eles, o sacrifício de Cristo na Santa Ceia é considerado como sendo um verdadeiro sacrifício, e se supõe que ele tem valor propiciatório. No que se refere à concepção católica romana da Ceia do Senhor, todo aquele que recebe os elementos, seja ímpio ou crente fiel, também recebe a graça simbolizada, concebida como uma substância contida nos elementos.

Já o conceito que prevalece nas igrejas protestantes é que a ordenança da Ceia do Senhor não é em si mesma uma causa ou fonte de graça, mas apenas um instrumento nas mãos de Deus. Sua operação efetiva depende, não só da presença da fé no participante, mas também da atividade da fé. Todavia, alguns luteranos e os episcopais da alta igreja, manifestam claramente uma tendência para adesão à posição da Igreja de Roma.

5. As Pessoas para as Quais Foi Instituída a Ceia do Senhor.
Esse tópico se propõe a responder à seguinte pergunta: “Para quem foi instituída a Ceia do Senhor?”.

Como resposta, podemos afirmar que a Ceia do Senhor não foi instituída para todos os homens, mas unicamente para os que se arrependem fervorosamente dos seus pecados, confiam que estes foram cobertos pelo sangue expiatório de Jesus Cristo, e estão desejosos de aumentar sua fé e de crescer num viver santo.

Os participantes da Ceia do Senhor têm que ser (1) pecadores arrependidos, que admitam que por si mesmo estão perdidos; (2) devem ter uma fé viva em Jesus Cristo, (3) confiam no sangue expiatório do Salvador. (4) Devem ter correta compreensão da Ceia do Senhor, (5) devem discernir entre ela e as refeições comuns, e (6) devem fixar o fato de que o pão e o vinho são lembranças do corpo e do sangue de Cristo, respectivamente. E, finalmente, (7) devem ter um santo desejo de crescimento espiritual e de cada vez maior conformidade com a imagem de Cristo.

Sendo assim, os que estão fora da Igreja não podem participar da Ceia do Senhor. Mas, entendo que é necessário estabelecer mais limitações, pois nem todos os que se acham na Igreja podem ser admitidos na mesa do Senhor. Devemos notar, portanto, as seguintes exceções:

  1. As crianças, embora tenham tido permissão para comer a páscoa nos tempos do AT, não podem ter permissão para participar da mesa do Senhor, simplesmente porque não podem satisfazer as exigências que são requeridas para uma participação digna. Paulo insiste na necessidade de autoexame antes da celebração (1Co 11: 28), e as crianças não são capazes de examinarem-se a si mesmas;
  2. Os descrentes que acaso haja dentro dos limites da Igreja não têm o direito de participar da mesa do Senhor. A Igreja já deve exigir uma confiável profissão de fé de todos os que desejam celebrar a Ceia do Senhor. É possível, sim, que ocasionalmente admita hipócritas aos privilégios da plena comunhão, mas tais pessoas, se participarem da Ceia do Senhor, comente comerão e beberão juízo para si mesmas;
  3. Nem mesmo os crentes verdadeiros podem participar da Ceia do Senhor em toda e qualquer condição, e em toda e qualquer disposição mental (1Co 11: 28-32). Havia práticas entre os cristãos da cidade Corinto, que faziam da sua participação na Ceia do Senhor um escárnio. Entretanto, devemos fazer a seguinte observação neste tópico: A falta de certeza de salvação não impede necessariamente alguém de vir à mesa do Senhor, visto que a Ceia do Senhor foi instituída com o propósito de fortalecer a fé.

Para resumir e finalizar, a Ceia do Senhor possui como principais significados a lembrança de Cristo (1Co 11: 24), a proclamação da sua morte (1Co 11: 26), a garantia da segunda vinda de Cristo (Mt 26: 29; 1Co 11: 26), um momento de comunhão com Cristo e seu povo(1Co 10: 21).

A Deus toda a Glória!


BIBLIOGRAFIA

  • BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. 3ª Ed. São Paulo, Cultura Cristã, 2009.
  • RYRIE, Charles Caldwell. Teologia Básica – Ao alcance de todos. São Paulo, Mundo Cristão, 2004.
  • BÍBLIA de Estudo Aplicação Pessoal. Versão Almeida, Revista e Corrigida. 1995

Por Linaldo Lima
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