As Raízes e Atualidades da Teologia da Prosperidade

sexta-feira, janeiro 29th, 2016

Resumo |
Este artigo visa apresentar uma análise histórico-crítica do movimento de confissão positiva, também conhecido como Teologia da Prosperidade, desde suas raízes históricas à sua massificação e momento atual no Brasil. A proposta deste artigo é avaliar, confrontando com a Bíblia Sagrada, o tipo de identidade cristã que esses movimentos têm gerado no Brasil,  bem como provocar uma reflexão nos cristãos sobre a necessidade de se voltar para o estudo e meditação das Sagradas Escrituras, para não serem levados por todo e qualquer tipo de “nova” doutrina.

Palavras-chave: Confissão positiva, positivismo, prosperidade, saúde, riqueza.

ABSTRACT
This article presents a historical and critical analysis of the positive confession movement, also known as the Prosperity Theology, from its historical roots to its mass and the moment in Brazil. The purpose of this article is to evaluate, comparing with the Holy Bible, the kind of Christian identity that these movements have generated in Brazil and cause a reflection on Christian about the need to return to the study and meditation of the Holy Scriptures, not for be taken by any kind of “new” doctrine.

Keywords: Positive Confession, positivism, prosperity, health, wealth.

Introdução
O Brasil é um país de cultura diversificada e rica, composta por três componentes principais: as influências culturais ibérica, latina e católica. Dessa mescla de culturas surgiu o imaginário de um mundo composto por espíritos bons e maus, por demônios, por poderes intermediários entre homens e o sobrenatural, e por possessões, como bem resumiu Mendonça (Apud Romero, 2005, p.87).

Em contraponto a esse cenário, a partir de 1850, o protestantismo histórico de missão desenvolveu sua proposta de evangelização com um programa de “linha liberal” marcado por sua presença na sociedade, voltada para a educação. Décadas depois surgiam os pentecostais, com ênfase nas manifestações dos dons espirituais. A partir daí, mais tarde, surgiria o movimento neopentecostal.

Sem uma linha teológica definida, o neopentecostalismo reúne várias posições doutrinárias e correntes teológicas, algumas delas assemelham-se às posições do pentecostalismo da primeira e segunda onda, mas em menor proporção. Esse movimento não tem preocupação com temas importantes da fé cristã, tais como justificação pela fé, adoção, predestinação e escatologia, o que ainda é valorizado pelas denominações históricas.

Por ser um movimento fragmentado, com muitos líderes de perfil carismático e imponente, cada grupo escolhe aquilo em que vai crer e determina sua própria liturgia. Enquanto algumas denominações procuram desenvolver um ministério de cura e libertação, outras preferem trabalhar a batalha espiritual, cura interior, espíritos maus, mapeamento espiritual e prosperidade financeira.

Uma das correntes doutrinárias que mais conquistou espaço no seio do movimento neopentecostal é a confissão positiva, também conhecida como “evangelho da saúde e prosperidade”, “palavra da fé”, “movimento da fé”, ou como simplesmente a “teologia da prosperidade”.

O objetivo deste trabalho de pesquisa e opinião é fazer uma análise histórica dessa corrente, desde as raízes históricas até o momento atual de atuação no Brasil, analisando seu crescimento vertiginoso no país, bem como a fragilidade de suas pregações, de acordo com as Sagradas Escrituras.

1. A origem do da teologia da prosperidade
O termo ora utilizado (Teologia da Prosperidade) é um dos menos difundido nas referências bibliográficas, mas como essa nomenclatura foi a que mais identificou esse movimento aqui no Brasil, estaremos também utilizando-a ao longo deste artigo. Mas também faremos menção aos termos literários mais comuns, já apresentados na introdução.

O Dictionary of pentecostal and charismatic movments [Dicionário dos movimentos pentecostal e carismático] Apud Romero (2005), assim define o tema:

Confissão positiva é um título alternativo para a teologia da fórmula da fé ou doutrina da prosperidade promulgada por vários televangelistas contemporâneos, sob a liderança e a inspiração de Essek William Kenyon. A expressão “confissão positiva” pode ser legitimamente interpretada de várias maneiras. O mais significativo é que a expressão “confissão positiva” refere-se literalmente a trazer à existência o que declaramos verbalmente, uma vez que a fé é uma confissão.

Segundo o próprio Romero (1995), a confissão positiva teve suas origens numa antiga heresia conhecida como gnosticismo, cuja palavra vem do grego “gnosis” e significa “conhecimento”, que surgiu nos primeiros séculos da era cristã. Tal heresia ensinava que havia uma verdade especial, mais elevada, acessível somente aos iluminados por Deus.  Os gnósticos acreditavam que na natureza humana há o princípio do dualismo (o espírito e o corpo – duas entidades separadas – são opostos). Para eles, o pecado habitava somente na carne, tornando-a totalmente má. O corpo podia fazer tudo o que lhe agradasse, vivendo nos prazeres da carne; isso não afetaria em nada o espírito, que era totalmente bom. Assim, alguém poderia ter uma vida impura fisicamente e ao mesmo tempo ser espiritualmente puro.

Ao longo da história, várias seitas gnósticas foram se tornando parte da história religiosa de diversos países, como os Estados Unidos, por exemplo. Umas de maneira direta, outras indiretamente. Como exemplos principais de seitas gnósticas diretas, podemos citar o “Mormonismo”, tornando homens em deuses, e a “Ciência Cristã”, com seus métodos de unidade com a Mente Divina.

Segundo Mata (Judith A. Apud Romero (1995)), “há seitas gnósticas na nossa sociedade hoje, e o movimento Palavra da Fé é a mais nova e disfarçada de todas as seitas gnósticas que apareceram nos últimos dois séculos”.

2. As raízes da teologia da prosperidade e seus principais representantes
A figura mais famosa da Teologia da Prosperidade, considerado pelos seus adeptos, é Keneth Hagin, mas algumas pesquisas cuidadosas feitas por diversos estudiosos, como D. R. McConnell chegam à conclusão de que o verdadeiro pai da confissão positiva é Essek William Kenyon (1867-1948).

2.1. Kenyon – O Pioneiro.
Essek William Kenyon nasceu no condado de Saratoga, Estado Nova York, e se converteu na adolescência (entre 15 e 19 anos). Aos dezenove anos de idade, pregou seu primeiro sermão numa igreja metodista. Em 1892, mudou-se para Boston, onde frequentou várias escolas, entre elas a Faculdade Emerson de Oratória, fundada por Charles Emerson, sua principal influência.

Sobre Charles Emerson, D. R. McConnell escreveu em seu livro “A Different Gospel” (Apud Romero, 2005):

Em seus quarenta anos de ministério, a teologia de Emerson evoluiu do congregacionalismo, para o novo pensamento (nova idéia) e terminou, finalmente, nos mais rígidos e dogmáticos de todos os grupos metafísicos, a ciência cristã. Emerson uniu-se a ciência cristã em 1903, e nela permaneceu até a morte, em 1908. Sua conversão à ciência cristã foi a última progressão lógica em sua evolução metafísica do ortodoxo para o sectário.

Uma das influências recebidas e reconhecidas por Kenyon nessa época foi a de Mary Baker Eddy, fundadora da Ciência Cristã.

Kenyon se envolveu em uma variedade de ministérios e atividades durante a sua vida. Iniciou o Instituto Bíblico Betel, que dirigiu até 1923.  Fez reuniões evangelísticas em San José, Oakland e outras cidades da Califórnia. Era sempre convidado por Aimee Semple McPherson para pregar no Angelus Temple, em Los Angeles, sede da Igreja do Evangelho Quadrangular. Em 1926, assumiu o pastorado de uma igreja batista independente em Pasadena, também na Califórnia. Fundou a Igreja Batista Nova Aliança, na cidade de Seattle, em 1931. Logo em seguida, começou um programa de rádio, o que o tornou um dos pioneiros desse novo método de evangelização. Romero (2005) relata que Kenyon mal sabia que o evangelismo eletrônico por ele iniciado seria largamente usado, décadas mais tarde, por muitos grupos, principalmente pelo movimento neopentecostal.

Ele faleceu no dia 19 de março de 1948 com a idade de 80 anos. Antes de sua morte, encarregou sua filha Rute de continuar seu ministério e publicar seus escritos, o que ela cumpriu fielmente. Mais tarde, os escritos e ideias de Kenyon seriam utilizados por alguém que daria forma e massificação jamais vista até então, dando inicio a um dos maiores e mais controvertidos movimentos dentro do cristianismo. Estamos falando de Kenneth Erwin Hagin, que se tornou o verdadeiro porta-voz da teologia da prosperidade, ou confissão positiva.

2.2. Kenneth Hagin – O Porta-Voz.
Kenneth Erwin Hagin, nascido em McKinney, Estado do Texas, Estados Unidos, em 20 de agosto de 1917. Iniciou seu ministério despretensiosamente como um pastor local. A partir dos anos 60, deu ao movimento de cura uma amplitude maior que seus antecessores. Junto a simples fé que Jesus Cristo cura enfermidades, Hagin pregou a confissão positiva, ou teologia da prosperidade, como elemento essencial para cura divina.

A autobiografia de Hagin informa que ele nasceu de um parto prematuro, com sério problema no coração e, por este motivo, os médicos o desenganaram. Teve uma infância difícil e turbulenta (seu pai abandonou a casa quando Hagin tinha apenas 6 (seis) anos de idade), o que o levou a ter tendências suicidas. Hagin nunca conseguiu ser uma criança normal e saudável. Aos 16 anos ele vivia acamado, fisicamente paralítico e muitas vezes incapaz de se manter consciente.

Duas experiências afetariam toda a vida e ministério de Hagin. A primeira foi ele ter sido “levado ao inferno”, por três vezes, onde viu e sentiu coisas que o deixariam perplexo. Depois da terceira “visita ao inferno”, Hagin aceitou a Cristo como seu Salvador. A segunda experiência veio através da leitura da passagem bíblica de Marcos 11: 23, 24, cuja reflexão o levou a conclusão de que era necessário crer, declarar verbalmente a fé e agir como se já tivesse recebido a bênção. Pouco depois, ficou curado da sua enfermidade.

O ministério de Hagin teve início em 1934, como pregador batista. Mas, devido à sua crença na cura divina, começou a frequentar reuniões de um grupo pentecostal, associando-se a eles. Em 1937, recebeu o batismo no Espírito Santo, falando em línguas estranhas. Naquele mesmo ano foi ordenado pastor da Assembleia de Deus, pastoreando diversas igrejas dessa denominação, de 1937 a 1949. Depois disso, se envolveu com vários pregadores independentes de curas divina, como William Branham, Oral Roberts, T. L. Osborn e outros. Em 1963, fundou seu próprio ministério (Kenneth Hagin Evangelistic Association); em 1966, iniciou um ministério no rádio e, em 1976, o primeiro programa de televisão foi produzido. Em 1974, Kenneth Hagin Jr. fundou o Rhema Bible Training Center, objetivando ensinar os princípios da confissão positiva aos candidatos ao ministério eclesiástico.

Além da cura divina, as visões também se tornaram parte importante do ministério de Kenneth Hagin, que acabaram se tornando o seu alicerce teológico, e trazendo diversas contradições e incoerências com a Bíblia Sagrada. Em seu fascínio pelo sobrenatural, alegou ter tido oito visões de Jesus Cristo nos anos 50, além de várias experiências fora do corpo. Segundo ele, seus ensinos lhe foram transmitidos diretamente pelo próprio Deus, através de revelações especiais, o que mais tarde foi refutado, após a comprovação de que Hagin plagiou os ensinos e escritos de Kenyon.

O ministério de Kenneth Hagin teve alcance até antes inimagináveis. O centro de treinamento Rhema, nos Estados Unidos, formou mais de 23 mil pastores. Seu programa de rádio (Faith seminar of the air) é transmitido por mais de 250 estações na América do Norte. Mais de 150 livros produzidos, tanto por Hagin quanto por Kenneth Hagin Jr. (seu filho), com mais de 65 milhões de cópias desses livros em circulação pelo globo, dentre outros.

2.3. Outros Nomes da Teologia da Prosperidade.
Além de Essek W. Kenyon e Kenneth E. Hagin, vários outros os nomes conhecidos são ligados à confissão positiva, ou teologia da prosperidade, tais como Kenneth Hagin Jr, Kenneth e Glória Copeland, T. L. Osborn, Fred Price, Hobart Freeman, Charles Capps, Jerry Savelle, John Osteen e lester Sumrall, dentre outros.

Benny Hinn é outro nome bastante conhecido desse movimento, tendo publicado vários livros. O mais conhecido é Bom dia, Espírito Santo. Hinn já esteve várias vezes no Brasil, sendo trazido para apoiar e conduzir algumas reuniões da igreja Renascer. Já nos Estados Unidos, se tornou um pregador controvertido, sendo conhecido por chocar auditórios com declarações surpreendentes.

3. Os representantes brasileiros da teologia da prosperidade.
Como se tornou uma marca registrada ao longo do tempo, geralmente (quase) tudo que se inicia nos Estados Unidos, tem sua massificação aqui no Brasil. E não foi diferente com o movimento da teologia da prosperidade, ou confissão positiva. Diversos outros líderes, igrejas e organizações aderiram aos ensinos da confissão positiva sem fazer uma avaliação criteriosa de sua proposta. Entre as primeiras movimentações do movimento estavam a Igreja do Verbo da Vida (Guarulhos), Comunidade Rema (Morro Grande) e a Igreja Verbo Vivo (Belo Horizonte).

Dentre os líderes que abraçaram essa teologia, o mais conhecido é R. R. Soares, líder da Igreja Internacional da Graça de Deus, responsável pela publicação da maioria dos livros de Kenneth Hagin no Brasil.

Outra pessoa de destaque da confissão positiva “brasileira” é o engenheiro Jorge Tadeu, pastor e líder das igrejas Maná, em Portugal, tendo alguns de seus livros circulado no Brasil. Além dele, também podemos destacar o pastor Cássio Colombo (o “tio Cássio”), do ministério Cristo Salva, em Indianápolis (São Paulo). Podemos citar também o ministério de Miguel Ângelo da Silva Ferreira, pastor da Igreja Evangélica Cristo Vive, no Rio de Janeiro.

Entretanto, a identificação da confissão positiva no Brasil tem um nome: Valnice Milhomens Coelho. Ela foi a personagem de maior expressão dessa teologia. Nasceu em 16 de julho de 1947, em Carolina, cidade do Estado do Maranhão. Quando jovem, após três anos dedicados ao estudo da Bíblia, teve um encontro com Cristo. Em 1971, foi enviada como a primeira missionária da Convenção Batista Brasileira à África, onde trabalhou por 13 anos em Moçambique. E foi lá que Valnice teve contato com os ensinos da confissão positiva, através da Escola Bíblica Rhema, ligada ao ministério de Keneth Hagin. Ao voltar para o Brasil, fundou o Ministério Palavra da Fé e começou a promover conferências e estudos bíblicos em diversas igrejas, de diversas denominações, país a fora.

Desse período em diante, as igrejas brasileiras sofreram um forte impacto de avalanche de livros, fitas e apostilas sobre a teologia da prosperidade. Gondim (1993) foi muito feliz em sua observação, quando resumiu: “Com livros extremamente simples, [Hagin] conseguiu influenciar os rumos da igreja no Brasil mais do que qualquer outro líder religioso nos últimos tempos”.

4. Principais igrejas fundadas no Brasil
Os grupos que difundem a teologia da prosperidade no Brasil são representados pelas igrejas neopentecostais, cujos nomes são mencionados abaixo, resumidamente:

  1. Igreja de Nova Vida (INV) – Fundada no final dos anos 1960, por Walter Robert McAlister, egresso da Assembléia de Deus e Cruzada Nacional de Evangelização. Ele fundou a igreja por ter se frustrado com a rigidez do pentecostalismo e pela falta de flexibilidade para alcançar as classes média e alta. Foi uma das igrejas de maior número de membros no início dos anos 1980. McAlister praticamente iniciou todas as vertentes da confissão positiva no Brasil, aplicando as inovações teológicas dos Estados Unidos (batalha espiritual, cura divina e prosperidade), além de possuir uma habilidade destacada para levantar recursos financeiros, além de ser um dos pioneiros no uso do evangelismo de comunicação de massa, investindo em programas de rádio e televisão. Quatros membros de futuro destaque estavam servindo no seu ministério, a saber: Edir Macedo, Romildo Ribeiro Soares (R. R. Soares), Miguel Angelo e Renato Suhett (bispo dissidente da IURD);
  2. Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) – Fundada em 1977 por Edir Macedo, R. R. Soares, Roberto Augusto Lopes e os irmãos Samuel e Fidélis Coutinho;
  3. Igreja Evangélica O Verbo da Vida (IEVV) – Fundada em 1985, em Guarulhos-SP, pelo casal norte-americano Harold Leroy Wright (conhecido como “Bud”) e Janace S. Wright. Essa igreja nasceu e cresceu sob os ensinamentos de Kenneth Hagin. Ela, inclusive, mantém diversas escolas Rhema promovendo cursos em diversas partes do Brasil;
  4. Igreja Apostólica Renascer em Cristo (IARC)Fundada em 1986 pelo casal Estevam e Sônia Hernandes, hoje “apóstolo” e “bispa”, respectivamente;
  5. Igreja Evangélica Cristo Vive (IECV)Fundada pelo também ex-líder da IURD, Miguel Ângelo (também “apóstolo” atualmente), em 1986 no Rio de Janeiro;
  6. Comunidade Sara Nossa Terra (CSNT)Fundada por Robson Rodovalho, em 1992. Despertou curiosidade da mídia por atrair pessoas do mundo artístico (Baby Consuelo, Monique Evans, por exemplo);
  7. Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo (INSJC)Fundada em 1994 por Valnice Milhomens Coelhos, missionária batista, que conheceu os ensinos da confissão positiva em sua viagem missionária pra África;
  8. Comunidade Cristã Paz e Vida (CCPV)Fundada em São Paulo, em 1996, pelos irmãos Pagliarin: Rodney, Juanribe, Misael e Hideraldo;
  9. Igreja Mundial do Poder de Deus (IMPB)Fundada em 1998 por Valdemiro Santiago, ex-líder da IURD por dezoito anos. Essa igreja está em franco crescimento nos dias atuais, bem como alcançando notoriedade também por suspeitas de ilegalidades;
  10. Igreja Bola de NeveTambém conhecida como a “igreja da prancha”, foi fundada no ano 2000 pelo pastor (hoje “apóstolo”) Rinaldo Luiz de Seixas Pereira, um surfista, que prefere ser chamado pelo apelido “Rina”.

 5. A teologia da confissão positiva
Os enfoques teológicos da confissão positiva estão todos (ou quase todos) em torno de três vertentes, representadas pela sigla SDD – Saúde, Doença e Dinheiro. Na visão dos adeptos dessa teologia, a doença é consequência da falta de fé e a pobreza não condiz com o verdadeiro cristão. Somado a tudo isso, há uma obsessão pelo sobrenatural, buscando entender a origem dos males, espiritualizando tudo e dando créditos ao diabo.

5.1. Saúde
Na teologia da prosperidade não há espaço para doenças. Os adeptos da confissão positiva usam muito o texto bíblico de Isaías 53:4-5 como base para afirmar que a salvação da alma e a saúde física estão totalmente garantidas na morte de Cristo na cruz. Como esse conceito que entrou no Brasil veio dos Estados Unidos, e quase todos os pregadores remetiam aos ensinos de Kenneth Hagin, as pregações de cura divina tomaram corpo e cresceram (e crescem) abruptamente no país.

Em muitos dos seus livros, Hagin defende que Deus quer que todos os homens vivam todo o período de suas vidas, aqui na terra, sem enfermidades e sem doenças; e que as pessoas que não conseguem atingir esse estágio da vida não apresentam uma fé suficiente para viver à altura do que Deus planejou para elas. Ora, se Cristo levou sobre si todas as nossas enfermidades, então não há mais necessidade de carregarmos doenças em nossos corpos, afirmam eles.

Outra questão importante sobre esse ponto é sobre as causas das doenças. Para muitos desses pregadores da teologia da prosperidade, as doenças são provocadas sempre e somente por agentes espirituais. Portanto, não consideram problemas hereditários, contexto social ou geográfico, bem como agentes físicos. Resumindo, para eles, os problemas de saúde podem ser causados pelos espíritos; o que reforça o uso de pregações sobre curas e milagres.

Romeiro (2005) registra que uma das posições que mais tem gerado controvérsia e suscitado críticas à teologia da prosperidade é a negação dos sintomas da doença, o que faz o enfermo praticamente rejeitar os recursos da medicina, uma vez que aprenderam uma questão simples: só pode haver cura se houver fé. Sendo assim, aos surgirem os sintomas, o enfermo deve imediatamente ignorá-los.

5.2. Dinheiro
Sobre essa questão, João Batista Libânio (Apud Romeiro, 2005) foi muito feliz quando afirmou que a confissão positiva, na verdade, é uma teologia moldada para alimentar igrejas que sustentam o sistema neoliberal, sendo tipicamente materialista, concedendo uma vida religiosa como uma transação financeira com o Céu.

Em contraste com os pentecostais, que preferiram seguir numa extremidade não considerando a busca pelas riquezas uma atividade virtuosa, para não se tornarem cristãos materialistas, os adeptos da confissão positiva (neopentecostais) consideravam o dinheiro uma bênção a ser buscada, um aliado do cristão na busca pela felicidade e prosperidade no mundo. Esse conceito foi introduzido por McAlister, através da “teologia do hinário” (tentativa de combinar dinheiro e fé), e ganhou proporções estratosféricas através de seus “herdeiros” Edir Macedo e R. R. Soares, em suas respectivas igrejas.

Corroborando com Romeiro (2005), acreditamos que não há nada de errado em um cristão procurar enriquecer ou buscar sua prosperidade financeira. Isso é lícito e salutar até certo ponto. Entretanto, faz-se necessário colocar em prática o ditado que diz que o dinheiro pode ser um ótimo empregado, mas nunca será um bom patrão. Se o cristão souber administrar com sabedoria o dinheiro que chegar a suas mãos, certamente ele será uma benção. Caso aconteça o contrário (o cristão ser controlado pelo dinheiro), acontecerá uma tragédia.

5.3. O diabo
A igreja evangélica, a partir de 1980, passou a ficar fascinada pelas forças do mal, bem como pelas formas de combatê-las. Com isso, surgiram no Brasil vários ministérios centrados na batalha espiritual, na cura interior e na libertação. O Diabo passou a ter seu lugar garantido no culto, seja no início, durante ou no final da liturgia. Geralmente, ele é apresentado como causador do fracasso, da doença, da miséria, dos vícios, do adultério e das brigas entre casais. Resumindo, tudo passou a ser “culpa do diabo”.

Como o Brasil é, culturalmente, um país místico desde a sua descoberta, ensinamentos como esse ocupou (e ocupa) lugar de destaque nas igrejas evangélicas, atraindo uma parcela considerável de pessoas. Assim, os pregadores de milagres, da solução imediata dos problemas e da vitória sobre toda a sorte de males passou até sucesso garantido.

No mesmo âmbito da batalha contra o mal, veio também a chamada “quebra de maldições hereditárias”, uma doutrina que ensina que as dificuldades, pecados e enfermidades na vida da pessoa provêm dos pecados de seus antepassados. Qual é a solução pra solucionar esse problema? A resposta é simples: tudo o que a pessoa precisa fazer é orar para que Deus lhe revele qual geração do passado afeta sua vida hoje, então deve pedir perdão por ela e para que o mal seja banido.

Foi aí, então, que passaram a surgir os nomes mais exóticos possíveis para “batizar” as reuniões de boa parte das igrejas neopentecostais, para proporcionar ao fiel a obtenção da benção e a conquista de uma vida de vitória. Sugiram, portanto, as “campanhas de sete dias”, “seção de descarrego”, “seção de cura interior”. Além disso, alguns problemas específicos receberam o seu espírito maligno correspondente, que deve ser vencido (como o “Zé Pelintra” para os viciados em tóxicos ou bebidas alcoólicas, e as “pombas-gira” que são associadas às prostitutas, homossexuais e lésbicas). Esse conceito, na íntegra, é aplicado na IURD.

R. R. Soares vai mais a fundo, afirmando que o poder das entidades malignas vai além de causar doenças. Atuam também na área financeira, no casamento e na vida profissional.

Assim, como registra o próprio Romeiro (2005), saúde, dinheiro e Diabo têm, na agenda da teologia da prosperidade, pelo menos em médio prazo, um futuro garantido. Uma pena!

6.  O movimento G12: uma das facetas da confissão positiva
Oriundo da Colômbia, o G12 (Grupo 12) é um movimento que propõe o crescimento das igrejas evangélicas através de células, com reuniões em casas. A principal figura desse movimento é César Castellanos Dominguez, líder da Missão Carismática Internacional, com sede em Bogotá.

Após o que afirma ser uma experiência frustrante (pastorear uma igreja com 30 membros e depois entrega-la com 120 fiéis), Castellanos diz ter tido uma experiência com Deus em suas férias, em fevereiro de 1983, na qual recebeu o chamado para pastorear. No mês seguinte, iniciou na sala de sua casa a Missão Carismática Internacional, com apenas oito pessoas. Depois, traçou um alvo para atingir o número de 200 membros.

O líder colombiano confessou que recebeu grande influência de David (Paul) Yonggi Cho, da Coréia, que já vinha adotando o sistema de crescimento em células por várias décadas (também chamado de grupos familiares). No Brasil, os responsáveis por trazer esse movimento foram Valnice Milhomens e Renê Terra Nova, que hoje está espalhado em diversas denominações, trajados de outros nomes, mas com a mesma filosofia.

6.1. Por que G12?
Numa de suas experiências sobrenaturais, Castellanos diz que Deus havia prometido lhe dar a capacidade de liderança em menos tempo. Pouco depois, ele chegou ao número cabalístico de doze, correlacionando com o número dos doze apóstolos de Jesus. Com o fim de justificar ainda mês esse número, Castellanos fez relação desse número com as 12 pedras no peitoral do sacerdote (Êx 28.29).

Mais tarde, Valnice Milhomens criou mais atenção em torno do número doze para corroborar o pensamento de Castellanos, relacionando-o com as horas do dia (dois tempos de 12 horas), com o formato de apresentação dos relógios analógicos, dentre outros.

6.2. Como Funciona
A igreja se divide em pequenos grupos, chamado de células. As pessoas são evangelizadas através dessas células, das reuniões na igreja ou de eventos evangelísticos. Depois de evangelizadas, começa o processo de consolidação. O novo convertido responde um questionário chamado mapeamento espiritual, com uma grande variedade de perguntas sobre o passado da pessoa e de seus familiares, chegando a um nível de detalhe tal que se torna constrangedor. Esse questionário vai dar ao líder da célula ou ao discipulador uma visão da jornada espiritual do novo discípulo. Em seguida, ele será levado a participar da célula, passando a construir novos relacionamentos.

Depois desse processo inicial, a pessoa é insistentemente estimulada a passar pelos seguintes:

  1. Pré-Encontro: Composto de quatro palestras preparatórias para o encontro de três dias. Nessa fase, o discípulo recebe estudos e orientações sobre a Igreja, o senhorio de Cristo, mordomia e batismo;
  2. Encontro: Um retiro espiritual de três dias, onde a pessoa receberá ministrações nas áreas de arrependimento, perdão, quebra de maldições, libertação, cura interior, batismo no Espírito Santo e a visão da igreja. Cerca de 100 (cem) pessoas, entre jovens, mulheres, homens e crianças, são separadas do contexto familiar e levadas a um lugar distante para receber ministrações. Esses lugares geralmente são chácaras, granjas ou clubes de campo;
  3. Pós-Encontro: Quatro palestras para consolidar as vitórias alcançadas no Encontro;
  4. Escola de Líderes: Formação em três estágios de três meses cada, para se tornar líder de célula e de grupo de doze;
  5. Envio: Quando o grupo de doze é consolidado, o líder estimula cada integrante a formar seu próprio grupo de 12. Surge então o líder de 144.

6.3. Práticas Estranhas
É fato que não há nada de errado em dividir igrejas em células ou grupos familiares para reuniões nos lares ou outros locais. Há vários exemplos de igrejas que têm feito isso com resultados consistentes, sem distorcer as Escrituras Sagradas.

Um dos problemas em relação ao G12 é a inserção de práticas, conceitos e ensinos nada bíblicos (quebra de maldições hereditárias, cura interior, mapeamento espiritual, escrever pecados em pedaços de papel e queimá-los na fogueira, e outros). Outra coisa preocupante é a proibição do compartilhamento do que se passa nos encontros. As pessoas são instruídas a responderem com frases de efeito ao serem indagadas, tais como “o encontro é tremendo”. E isso é um compromisso assumido entre todos os participantes. Essa prática contradiz com o princípio de compartilhamento das boas-novas estabelecidos nos evangelhos (João 18.20), bem como nos ensinos do apóstolo Paulo (2 Timóteo 2.2).

Outro problema do G12 é a sua postura exclusivista. Ele é apresentado como a única solução para resolver os problemas do mundo. É apresentado ainda como a restauração da Igreja segundo o seu modelo original em Atos dos Apóstolos.

6.4. Doutrina Contestável
Como bem tratamos no início desse ponto, o G12 é uma das novas facetas da confissão positiva, tendo recebido várias influencias dos líderes dessa corrente teológica. Ou seja, é um movimento que deixa muito a desejar no que se refere a discernimento doutrinário, pois tem sido influenciado pelos ensinos anômalos de Peter Wagner (Professor da Escola de Missões do Seminário Fuller, na Califórnia) e de outros na área de batalha espiritual. Seus escritos, porém, são inaceitáveis à luz da Bíblia, como também os de Rebeca Brown.

O G12 atualmente está disfarçado de um monte de projetos de igrejas em células, com ensinos fragmentados e soltos por aí, mas disseminando seus conceitos e ensinos da mesma forma. Cabe a Igreja ficar atenta e conhecer bem as Escrituras Sagradas para refutar todo e qualquer movimento que as contradigam.

Considerações Finais
Da mesma maneira em que trouxe um crescimento sem igual no número de novos crentes, além de uma nova forma de evangelização usando as principais mídias (jornais, rádio e TV), a teologia da prosperidade trouxe males em proporções bem maiores que as benesses.

Além de apresentar ensinos questionáveis sobre a fé, a oração e as prioridades da vida cristã, e de relativizar a importância das Escrituras por meio de novas revelações, a teologia da prosperidade, através dos escritos e de seus líderes, apresenta outras ênfases preocupantes no seu entendimento de Deus, de Jesus Cristo, do ser humano e da salvação. A partir dos anos 80, várias denominações pentecostais (Assembléia de Deus, Evangellho Quadrangular, Igreja de Deus) e líderes carismáticos norte-americanos (Charles Farah, Gordon Fee, D. R. McConnell e Hank Hanegraaff) se posicionaram oficialmente contra os excessos desse movimento, destacando como a teologia da prosperidade se distancia de pontos cruciais da fé cristã histórica, embora pareça uma maneira empolgante de encarar a Bíblia.

Infelizmente esse tipo de movimento só faz crescer no Brasil. Como um fato triste, vários grupos estão cada vez mais comprometidos com essa teologia controvertida, principalmente os que têm maior visibilidade na mídia. Por defenderem e legitimarem os valores da sociedade secular (sucesso, saúde, prosperidade, poder, status), em detrimento do Reino de Deus, tais igrejas crescem absurdamente, mas perdem uma grande oportunidade de impactar de maneira salutar e transformar, de fato, a sociedade brasileira.

Referências
IENH. Manual de normas de ABNT. Disponível em www.ienh.com.br

Bibliografia Consultada
ROMEIRO, Paulo. Decepcionados com a Graça: esperanças e frustrações no Brasil neopentecostal. São Paulo-SP: Mundo Cristão, 2005;

ROMEIRO, Paulo. SUPERCRENTES: O Evangelho Segundo Keneth Hagin, Valnice Milhomens e os Profetas da Prosperidade. 7ª Ed., São Paulo-SP: Mundo Cristão, 1995;

ROMEIRO, Paulo. Evangélicos em Crise. Decadência doutrinária na igreja brasileira. 2ª Ed., São Paulo: Mundo Cristão, 1999;

GONDIM, Ricardo. O Evangelho da Nova EraUma análise e refutação bíblica da chamada Teologia da Prosperidade. São Paulo-SP: Abba Press, 1993;

MATOS, Alderi Souza de. Raízes históricas da teologia da prosperidade. Artigo publicado pela Revista Ultimato e disponível na internet via WWW, através da URL: http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/313/raizes-historicas-da-teologia-da-prosperidade. Acessado em 07/11/2014;

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