Bem-Aventurados os Mansos…

quarta-feira, junho 17th, 2015

Texto Bíblico: Mateus 5: 5.
“Bem-aventurados os humildes (mansos), porque herdarão a terra”.

bem-aventurados-os-mansosO significado da palavra mansidão na língua portuguesa não consegue trazer a profundidade do ensinamento que Jesus trouxe aos seus discípulos através dessa bem-aventurança. A compreensão que temos para o termo “manso” nos traz a imagem de uma pessoa passiva e muito pouco ativa. O dicionário Michaelis define o termo como “Brandura ou lentidão nas palavras ou na voz”.

No mundo atual, a palavra “manso” não é precisamente uma das que usaríamos como adjetivo de elogio para ninguém, por implicar essa matriz de servilismo com que ninguém se sente honrado, bem como uma certa passividade que pouco serve para o contexto de mundo moderno que vivemos.

Entretanto, o termo “praus” (equivalente a “manso”) utilizado por Jesus era um dos termos mais elevados do vocabulário ético grego (BARCLAY, 1983, p.105). Para termos uma compreensão melhor, esse termo foi aplicado em diversos contextos e situações, trazendo significados profundos e interligados, que acabam nos fazendo entender a essência do que Jesus estava ensinando aos seus discípulos sobre essa bem-aventurança.

Selecionamos, portanto, três desses significados para refletirmos sobre a essência do que Jesus queria dizer com os termos “mansos” e “herdarão a terra” nessa bem-aventurança. Vamos continuar nossa viagem?

1. O meio entre os extremos.
Nesse contexto, Aristóteles é uma figura importante. Ele fala extensamente sobre a virtude da mansidão (praotés), cujas características metodológicas, em sua ética, era definir cada virtude como meio termo entre dois extremos. De lado estava o extremo por defeito e pelo outro o extremo por excesso. Na metade do caminho entre ambos se localizava a virtude. Por exemplo, em um extremo está o esbanjador, no outro o avarento, enquanto que no meio está o homem generoso.

Aristóteles define a mansidão como o justo meio entre a ira excessiva e a falta absoluta de ira, ou passividade. Tomando como base a definição de Aristóteles, portanto, a primeira tradução possível para desta bem-aventurada é: “Bem-aventurado o homem que sabe irar-se na hora…” (Mt 5.5a).

Barclay (1983) estabelece como regra geral que nunca é hora de nos irarmos pelos insultos ou ofensas que nós mesmos recebemos, mas que o momento certo de nos zangar é quando se ofende a outros. Para ele, a ira egoísta é sempre um pecado, enquanto que a ira altruísta pode ser uma das grandes molas morais da dinâmica moral de nosso mundo.

Em resumo, tomando como base termo usado por Aristóteles, podemos entender que ser “manso” é possuir um controle sobre o momento certo de irar-se, com foco sempre no altruísmo, descartando os motivos egoístas.

2. Controle sobre os instintos.
Mas a palavra praus também tinha outro significado em grego. Era o termo que usava, como em português, para designar o animal domesticado, que tinha sido educado para que obedecesse a voz de seu dono. É a palavra que corresponde ao animal que aprendeu a aceitar o controle do homem.

Sendo assim, uma segunda tradução possível para desta bem-aventurança proferida por Jesus é: “Bem-aventurado o homem cujos instintos, paixões e impulsos estão sob controle; bem-aventurado o homem que aprendeu a ter autocontrole”.

Entretanto, esse significado tem muito pouco a ver com o que Jesus teria dito aos seus discípulos, principalmente porque o autodomínio é um ideal moral que está além das possibilidade dos mortais, a não ser em forma de bem-aventurança do homem dirigido por Deus.

3. Autêntica humildade.
Os gregos sempre contrastavam a mansidão com o orgulho. Eles eram taxativos na afirmação de que a mansidão é uma autêntica humildade que descarta por completo o orgulho. Um fato! A ausência de humildade num indivíduo o impedirá de chegar até a Deus. Vejamos:

a) Sem a humildade é impossível o indivíduo aprender alguma coisa, porque o primeiro passo para a aprendizagem é a humildade em reconhecer nossa ignorância. Ninguém consegue ensinar ao que pensa que já sabe tudo;

b) Sem humildade não pode haver amor, porque o princípio do amor é o sentimento de indignidade;

c) Sem humildade não pode haver a verdadeira religião, porque toda religião começa com a consciência de nossa debilidade e necessidade de Deus.

O homem só alcança a estatura perfeita de sua humanidade amadurecida quando aprende que é uma criatura e que Deus é seu Criador, e que sem Deus não há nada que ele possa fazer.

“Mansidão” descreve a humildade (tanto que já temos Bíblias traduzidas com esta palavra nessa bem-aventurança), a aceitação da necessidade de aprender e de ser perdoado. Sendo assim, uma terceira tradução para essa bem-aventurança poderia ser: “Bem-aventurado o homem que possui a suficiente humildade para se dar conta de sua ignorância, debilidade e necessidade de ajuda”.

4. Consequência da bem-aventurança.
Jesus disse que o homem com essa bem-aventurança herdará a Terra. A história demonstra que os indivíduos que possuíam a verdadeira grandeza eram os que que exerceram controle sobre si mesmo, bem como aprenderam a controlar seus instintos, paixões e impulsos. Moisés foi um exemplo de homem manso (Números 12:3).

Ninguém pode governar a outros até não ter aprendido a governar-se a si mesmo; ninguém pode servir a outros até que não tenha aprendido a sujeitar-se a si mesmo; ninguém pode controlar a outros até que não sabe controlar-se a si mesmo. Mas o homem que se entrega ao controle de Deus obterá a mansidão que o fará herdar a Terra.

Como diz o próprio Barclay (1983), a palavra grega praus significa muito mais do que a palavra portuguesa “manso”. Não há uma palavra em nosso idioma que possa traduzi-la sem a consequente perda de significado.

Portanto, após a nossa reflexão, a tradução completa da terceira bem-aventurança poderia ser traduzida da seguinte forma:

“Quão feliz é o homem que sabe quando expressar sua ira e que nunca se zanga fora do tempo, que aprendeu a controlar seus instintos, impulsos e paixões, porque colocou sua vida sob o governo de Deus, e que tem suficiente humildade para reconhecer sua própria ignorância e debilidade, porque o homem que possui tais virtudes é rei entre os homens”.

#OsMansosHerdarãoATerra!

Por Linaldo Lima
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BIBLIOGRAFIAS:

  • BARCLAY, Willian. Lucas; Atos. Buenos Aires, Argentina: La Aurora, 1983;
  • JAMES, Kim. Bíblia de Estudo Atualizada. Versão KJA. 2001-2011 v1. 2 – Disponível no aplicativo Bible Analyser 4.

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