Redescobrindo a Graça num mundo sem graça

segunda-feira, janeiro 12th, 2015

Texto Bíblico: Efésios 2: 1 – 10.
“Porquanto, pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2:8).

Redescobrindo-A-Graça-CAPAHá cerca de três meses temos sido inquietados para pesquisar e estudar com mais profundidade a respeito da graça divina. Mas, ao começar a estudar e “mergulhar” nos textos bíblicos que falam sobre o tema, percebemos que Deus estava querendo tratar conosco de uma forma toda especial, principalmente quebrando alguns paradigmas que ainda estavam firmes em nossas convicções. Confesso que nessas duas últimas semanas, o Senhor tem desconstruído uma série de conceitos que construí erradamente ao longo desses quase dezoito anos de vida cristã e tem transbordado meu coração com uma nova forma de pensar sobre a Sua Graça. E é justamente sobre essa nova forma de pensar que queremos refletir com você, caro leitor e ouvinte, através desse artigo.

Na passagem bíblica de Efésios 2:1-10, Paulo apresenta o que podemos intitular de “o tratado da graça”, pois o apóstolo discorre sobre o tema de maneira tão fluida que nem se dá conta das regras da gramática: começa com orações sem terminar; no meio do caminho deixa uma construção que antes tinha adotado. Como diz Barclay (1983), essa passagem trata-se muito mais de um poema sobre o amor de Deus que de uma cuidadosa exposição teológica. O apóstolo derrama seu coração de tal maneira que as exigências gramaticais cedem às maravilhas da graça.

Tida como doutrina essencial da fé cristã, a graça de Deus é apresentada e tratada amplamente na Bíblia Sagrada, a partir do Antigo Testamento. O apóstolo Paulo fez dela um dos temas principais de suas pregações e escritos, pois a conheceu na salvação de sua alma e por ela foi sustentado em toda a sua vida e ministério. Mas o que é graça, afinal?


1.
O QUE É GRAÇA
“Como um vasto lençol aquífero, a palavra [graça] sustenta nossa civilização orgulhosa, lembrando-nos que as coisas boas não vêm de nossos próprios esforços, e sim pela graça de Deus” (Philip Yancey).

Muitas pessoas “dão graças” antes das refeições, reconhecendo diariamente o pão como um presente de Deus. Somos gratos pela bondade de alguém, sentimo-nos gratificados com boas notícias, congratulados quando temos sucesso, graciosos hospedando amigos. Quando uma pessoa nos serve bem, deixamos uma gratificação. Por outro lado, quando insultamos uma pessoa apontando a carência da graça, a chamamos de “seu ingrato”. Ou, pior ainda, dizemos: “Você é uma desgraça!”. Uma pessoa que ofende ao governo com algum ato de traição é proclamada uma persona non grata (“pessoa sem graça”). Ou seja, já deu pra perceber que a graça não é um assunto fácil de ser explicado, dada sua vastidão de aplicações… Mesmo assim, tentaremos achar alguns conceitos ou definições para facilitar nossa compreensão nesta mensagem.

O termo (no hebraico, hçn) para favor ou graça apresenta vários significados, tais como: “conceder um favor”, “ser gracioso, demonstrar favor” e “sentir solidariedade, compaixão”. Ela ocorre 69 no Antigo Testamento, das quais 43 aparecem na frase “achar favor aos olhos de”, sete com o verbo “dar” e três com o verbo “alcançar” (Et 2:15, 17; 5:2), restando 14 usos independentes do termo. Já no Novo Testamento, o termo grego utilizado para graça é charis e suas derivações, que significa “presente oferecido de boa vontade”; esse termo é utilizado 155 vezes, dos quais 100 são usados nas cartas de Paulo.

O termo graça é usado quando o mais forte socorre o mais fraco que precisa de ajuda por causa das circunstâncias ou de sua fraqueza. Ele age pela decisão voluntária, impulsionada pela dependência ou súplica da parte mais fraca.

Para Charles Swindoll (Apud Romeiro, 2005, p.168), “mostrar graça é estender favor ou bondade a alguém que não merece e jamais pode ganhar a graça por seus próprios meios… O dom está sendo estendido simplesmente pela bondade do coração do doador”.

Philip Yancey (1999) diz que “graça significa que não há nada que possamos fazer para Deus nos amar mais – Nenhuma quantidade de renúncia, nenhuma quantidade de conhecimento recebido em seminários e faculdades, nenhuma quantidade de cruzadas [shows, congressos, conferências] em benefício de causas justas. E a graça significa que não há nada que possamos fazer para Deus nos amar menosnenhuma quantidade de racismo ou orgulho, pornografia ou adultério, ou até mesmo homicídio. A graça significa que Deus já nos ama tanto quanto é possível um Deus infinito nos amar.

A Graça não se explica. Transmite-se!


2.
O MUNDO SEM GRAÇA
Vivemos num mundo marcado por guerras, violência, instabilidade econômica, crises em vários países (inclusive o Brasil), intolerância e extremismo religioso, processos e desmembramento de famílias. Isso só demonstra claramente que o mundo ainda não alcançou a graça.

A cultura secular nos diz que a pessoa deve ter boa aparência, sentir-se bem e fazer o bem. A religião sem graça nos impõe regras que devemos seguir ao pé da letra e que o fracasso provoca rejeição eterna. Os pais convencem seus filhos de que nunca conseguirão a aprovação deles – “você não tem vergonha?”. Como habitantes das cidades que já não percebem mais o ar poluído, nós respiramos, inconscientes, a atmosfera da falta de graça.

Cada instituição – as escolas, o serviço militar, as empresas, o poder público em geral – ao que parece, funciona no sistema de não graça e insiste no fato de que merecemos nossas regalias. Não há lugar para aqueles que fracassam.

Entretanto, A graça é o melhor presente do cristianismo ao mundo. Ela é uma boa nova espiritual no nosso meio exercendo uma força maior do que a vingança, mais forte do que o racismo, mais forte do que o ódio. É triste dizer, mas, infelizmente, para um mundo carente, a igreja às vezes apresenta mais uma forma de carência de graça (Yancey, 1999, p.31). Através da criação de diversos padrões de conduta que estão mais voltados para atender aos anseios e desejos de seus líderes, do que cumprir os princípios bíblicos, as igrejas perdem uma grande oportunidade de demonstrar graça, fazendo uso dessas “leis”.

Ao longo desses quase 18 anos de vida cristã temos percebido que quase todas as igrejas as quais visitamos fazem uso diário tanto da “dispensação da Lei” quanto da “dispensação da Graça”. Para umas coisas, a graça; para todas as outras, a lei. Chega uma hora em que você não sabe mais se o que está sendo proposto (ou imposto) é lei ou graça. Tudo isso é feito para se atingir a espiritualidade desejada por eles.

O mundo está repleto de pacientes precisando de tratamento. Homens abrigando culpa por um antigo pecado, uma mulher que não consegue esquecer um aborto que fez há dez anos. O que esses pacientes estão buscando é a graça. Mas, ao chegar a algumas igrejas encontram a vergonha, a ameaça do castigo e um sentimento de julgamento. Resumindo, quando procuram graça na igreja, com frequência encontram não graça.

Quando, hoje, ouvimos as palavras “cristão evangélico”, no que as pessoas pensam? Será que elas vão nos dar uma resposta com fragrância de graça, ou farão referências aos adjetivos pejorativos com os quais nos chamam atualmente (como intolerantes, orgulhosos, exclusivistas, preconceituosos, pedantes, mal-educados, comilões, avarentos, etc)? Com certeza essa caracterização de cristãos está incompleta, pois conhecemos muitos cristãos que personificam a graça. Mas em algum ponto da história a igreja conseguiu receber uma reputação de falta de graça.

A igreja como um todo precisa redescobrir a graça de Deus para si, entendendo que ela está em toda a parte como lentes que não percebemos porque estamos olhando através delas. Precisamos relembrar que a graça é de graça para pessoas que não merecem, como nós!


3.
A DIFERENÇA ENTRE GRAÇA E MISERICÓRDIA.
Certo pregador já falou em algum lugar e dia sobre a diferença entre misericórdia e graça. Explicou que misericórdia é quando Deus não dá à pessoa o que ela merece. De fato, todo ser humano merece a ira de Deus, a separação dele e a perdição. Todavia, Deus em sua misericórdia, não age desse modo.

Graça, por sua vez, é quando Deus dá ao ser humano o que ele não merece.Ninguém merece o perdão, salvação, vida eterna, comunhão com Deus e paz. O Senhor, porém, em Sua graça pode nos dar tudo isso, porque é um favor que não merecemos.

Abrindo um parêntese (), esse ponto é fascinante para derrubar um dos fortes argumentos dos adeptos da “teologia da prosperidade”, que estimulam seus fiéis a “exigirem de Deus o que lhe é de direito”. Se, de fato, alguém exigir de Deus o que merece e Deus resolver atender, será uma tragédia. Mas a própria Bíblia diz que não sabemos pedir como convém (Rm 8:26), ou que pedimos mal (Tg 4:3). Deus é poderoso para fazer muito mais do que pedimos ou pensamos (Ef 3:20).


4.
ATITUDE MOVIDA PELA GRAÇA
A Bíblia está cheia de exemplos que ilustram a graça de Deus alcançado a vida de homens e mulheres. Um dos que nos chamou a atenção é o de Mefibosete, filho de Jônatas e neto de Saul. Jônatas foi o amigo mais íntimo de Davi e com quem o rei fizera um pacto de lealdade (1Sm 18:3).

Mefibosete tinha cinco anos de idade quando lhe chegou a notícia da morte de seu pai (Jônatas) e de seu avô (Saul) (2Sm 4:4). Apavorada, sua criada fugiu com o menino, buscando escondê-lo. Devido a uma queda durante a fuga, Mefibosete ficou aleijado de ambos os pés. Anos mais tarde, depois da estabilização de seu reino, Davi procurou beneficiar os familiares de Saul por amor ao seu amigo Jônatas. Ao perguntar se ainda havia alguém vivo, o rei tomou conhecimento sobre Mefibosete e mandou chama-lo ao palácio (2Sm 9:1-13).

Ao ter seu nome pronunciado, Mefibosete respondeu temerosamente: “Eis aqui teu servo, senhor!” (2Sm 9:6). Davi então lhe disse: “Não temas, porquanto o chamei aqui para lhe demonstrar bondade, por amor Jônatas, teu pai, meu amigo; restituirei as terras de Saul, pai de teu pai, e tu sempre haverás de comer à minha mesa” (2Sm 9:7).

A resposta de Mefibosete nos traz o verdadeiro sentido da graça. Ele declarou: “Ó senhor, quem é este teu servo, para dares tua preciosa atenção? Valho tanto quanto um cachorro morto.” Com essa expressão, Mefibosete queria dizer ao rei que não valia a pena perder tempo com ele, dada a sua insignificância. Mesmo assim, o filho de Jônatas passou a fazer suas refeições sempre à mesa do rei (2Sm 9:13).

Davi teve uma atitude movida pela graça. Ele não tinha nenhuma obrigação de ajudar Mefibosete e nada lucraria em fazê-lo. Além disso, Mefibosete não tinha nenhum direito àquele auxílio e nada para oferecer ao rei. Os benefícios lhe chegaram por amor a Jônatas e nada mais. Não havia espaço para reivindicar ou exigir direitos.

Nós somos o “Mefibosete” da história, caros leitores e ouvintes. Deus não tinha nenhuma obrigação conosco após a queda no Éden, e nada lucraria em nos ajudar. Muito pelo contrário, O Senhor estava sujeito a se decepcionar novamente com a raça humana. Mas Ele desistiu do Seu Filho para não desistir de nós e, por amor a Jesus, a graça chegou até nós. Por isso o cristão é agraciado diariamente com bênçãos imerecidas, vindas do céu, por amor de Jesus.


5.
A GRAÇA NO AMOR CEGO DE UM PAI (Lc 15).
O capítulo 15 do Evangelho de Lucas apresenta três histórias maravilhosas que vão de encontro a tudo o que já imaginamos sobre Deus, bem como interpretamos sobre o texto para compartilhamento com outras pessoas.

Muitas pessoas (até mesmo cristãs) imaginam Deus como uma figura trovejante e distante que prefere medo e respeito ao amor. Todavia, Jesus fala de um pai publicamente se humilhando e correndo ao encontro do filho para abraçar aquele que desperdiçou metade da fortuna da família. No encontro, não há nenhum discurso: “Espero que tenhas aprendido a lição!”. Muito pelo contrário: “Pois este meu filho estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado… E começaram a alegrar-se”.

A parábola do Filho Pródigo aparece numa séria de três histórias – a ovelha perdida, a moeda perdida, o filho pródigo –, todas destacando o mesmo ponto. Cada uma delas destaca o sentimento da perda, fala da alegria da redescoberta e termina com uma cena de júbilo.

“É estranho, mas a redescoberta pode nos tocar mais profundamente do que a descoberta. Perder e depois achar uma caneta Mont Blanc torna o proprietário mais feliz do queno dia em que a adquiriu” (Yancey, 1999). Três meses antes da conclusão do meu curso de administração, perdi o disco do meu computador onde estava gravado o meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), 80% concluído. Confesso que fiquei completamente desolado. Todo o esforço de dois anos (comecei o tcc na metade do curso) tinha ido por água abaixo. Como encontraria forças para, em três meses, fazer o trabalho que levou dois anos? Uma semana depois, lembrei que tinha feito uma cópia de segurança (backup) em algum CD, que estava no meio das minhas coisas. Parei tudo o que estava fazendo e fui procurar esse CD. Quando o encontrei e vi que o arquivo estava lá, salvo e apenas com um intervalo de um mês da última alteração, pode ter certeza que a minha alegria foi maior do que quando tinha começado a escrevê-lo.

Essa experiência nos faz abrir mais o leque e imaginar como um pai deve se sentir quando recebe um telefonema da Polícia contando que a filha sequestrada há seis meses fora localizada, viva. Ou de uma esposa ao receber uma nova ligação da aeromoça se desculpando pelo engano: seu marido não estava a bordo do Boeing 747 que caiu. Essas imagens dão uma pequena demonstração da alegria de Deus quando recebe de volta outro membro de sua família. “Assim vos digo que há alegria diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende” (Lc 15: 10).

Vejamos como a graça é chocante. Deus se alegra, não porque os problemas do mundo foram resolvidos, não porque todo o sofrimento da humanidade acabou; não porque milhares de pessoas se converteram; mas porque um dos seus filhos que estava perdido foi achado. Acontece que Jesus não nos contou as parábolas para nos ensinar a viver. Cremos que ele as contou para corrigir nossa noção a respeito de quem é Deus e a quem Deus ama.

Para provocar seus ouvintes, na parábola do Filho Pródigo, Jesus introduziu o irmão mais velho para anunciar o devido sentimento de insulto pelo fato de o pai ter recompensado um comportamento irresponsável. Em um de seus últimos atos antes de morrer, Jesus perdoou o ladrão que estava em um de seus lados na cruz, sabendo que o ladrão havia se convertido por causa de puro medo. Esse ladrão nunca estudaria a Bíblia, nunca frequentaria uma igreja e nunca acertaria sua vida com todos aqueles aos quais havia prejudicado. Isso foi outro lembrete chocante de que a graça não depende do que fazemos ou fizemos por Deus, mas antes, do que Deus fez por nós.

Essas três histórias – a ovelha perdida, a moeda perdida e o filho pródigo – retratam o modelo de Jesus na terra. Ele foi o pastor que deixou a segurança do aprisco para sair na noite escura e perigosa lá fora. Nos seus banquetes ele recebeu cobradores de impostos, leprosos e prostitutas. E àqueles que o traíram – especialmente os discípulos, quando o abandonaram – Ele respondeu como um pai cego de amor.


6.
O CÁLCULO DA GRAÇA (Mt 20:1-15).
No texto bíblico de referência, Jesus conta a história de um lavrador que contratou pessoas para trabalhar em suas vinhas. Algumas começaram ao raiar do dia, outras no meio da manhã, algumas na hora do almoço, outras no meio da tarde, e algumas uma hora antes de encerrar o expediente. Todos pareciam satisfeitos até a hora do pagamento, quando aqueles que trabalharam doze horas sob um sol causticante ficaram sabendo que os “folgados”, que mal haviam trabalhado uma hora, receberiam exatamente o mesmo pagamento. A atitude do patrão contradizia tudo o que eles aprenderam a respeito de motivação para o trabalho e justa compensação.

Realmente, a história de Jesus não faz sentido do ponto de vista econômico, e essa foi a sua intenção. Ele estava nos dando uma parábola a respeito da graça, que não pode ser calculada como o salário de um dia. A graça não trata de acabar primeiro ou depois, trata de não levar em conta. Recebemos a graça como um dom de Deus, e não por alguma coisa que tenhamos dado duro pra ganhar, um ponto que Jesus tornou claro na resposta do empregador: “Amigo, não estou sendo injusto contigo. Não combinamos que te pagaria um denário pelo dia trabalhado? Sendo assim, toma o que é teu, e vai-te; pois é meu desejo dar a este último tanto quanto dei a ti. Porventura não me é permitido fazer o que quero do que é meu? Ou manifestas tua inveja porque eu sou generoso?” (Mt 20:13-15).

O empregador na história de Jesus não enganou os trabalhadores. Eles receberam o que fora prometido. Seu descontentamento surgiu por causa do cálculo escandaloso da graça. Eles não podiam aceitar que o empregador tivesse o direito de fazer o que queria com seu dinheiro, pagando aos folgados doze vezes o que mereciam.

Da mesma maneira, muitos cristãos que estudam esta parábola se identificam com os empregados que trabalharam o dia todo, em vez dos outros. Gostamos de nos considerar trabalhadores responsáveis, e o comportamento estranho do empregador nos desconcerta como desconcertou os ouvintes da parábola. Entretanto, precisamos aprender o ponto principal da história: Deus concede dons, e não salários. Nenhum de nós recebe pagamento de acordo com o mérito, pois não somos capazes de satisfazer as exigências de Deus para uma vida perfeita. Se fôssemos pagos com base na justiça, todos nós iríamos parar no inferno. No reino da graça a palavra merecer sequer é mencionada.

No mundo em que vivemos tudo depende do que fazemos. Temos de fazer os pontos necessários para alcançar o posto que desejamos. Mas, o reino de Jesus nos chama para trilhar outro caminho, um caminho que não depende de nossas realizações, mas sim, da realização dEle. Precisamos apenas seguí-lo, uma vez que ele já ganhou pra nós a preciosa vitória da aceitação de Deus. Glórias a Cristo Jesus!

No cálculo da graça, Deus dá dons aos homens de acordo com a Sua Justiça, sem levar em consideração quaisquer méritos humanos para Ele.


7.
O ESCÂNDALO GRACIOSO DO PERDÃO (Gn 42 – 45).
A história da reconciliação de José com seus irmãos nos traz o sentimento de que o perdão é dolorosamente difícil. Num momento, José agia de maneira rude, jogando seus irmãos na prisão; em seguida, parecia estar desolado pela tristeza, saindo da sala para se acabar em lágrimas, como um bêbado. Ele foi ardiloso com os irmãos, escondendo dinheiro em seus sacos de mantimentos, mantendo um deles como refém, acusando outro de roubar seu copo de prata. Durante alguns meses José ficou nesse jogo até que, finalmente, ele não aguentou mais; convocou seus irmãos e os perdoou, dramaticamente.

Os irmãos que José lutou para perdoar foram os mesmos que haviam maltratado que tinham armado planos para mata-lo, que o haviam vendido como escravo. Por causa deles, José havia passado os melhores anos de sua juventude mofando na cadeia. E, mesmo tendo triunfado e desejando perdoá-los, não conseguia fazer isso. A ferida doía muito.

Todos nós aprendemos desde criança que “quem com o ferro fere, com o ele será ferido”. A lei da natureza não admite perdão. O mundo lá fora é de “um-comendo-o-outro”, e não de “um-perdoando-o-outro”. Ou que país declara para o seu vizinho: “Vocês estão certos, nós ultrapassamos suas fronteiras. Por favor, vocês podem nos perdoar”?

Na oração do “Pai nosso”, Jesus vinculou o perdão divino à nossa disposição de perdoar atos de injustiça. Em um mundo governado pelas leis da não graça, Jesus exige de nós uma reação de perdão. E, assim como a graça, o perdão também traz em si a qualidade de ser não merecido, sem mérito, injusto.

O escândalo do perdão confronta qualquer pessoa que concorde com um cessar-fogo apenas porque alguém diz “Sinto muito”. Geralmente, quando nos sentimos ofendidos, imaginamos uma centena de motivos contra o perdão. Ele precisa aprender uma lição. Não quero incentivar o comportamento irresponsável. Vou deixa-la em banho-maria por um tempo; vai-lhe fazer bem. Ela precisa aprender que suas atitudes têm consequências. Fui ofendido – não preciso dar o primeiro passo. Controlamos nossos argumentos até que aconteça alguma coisa que derrube a nossa resistência. Quando amolecemos ao ponto de conceder o perdão, damos um salto da frieza para o sentimentalismo.

Podemos identificar pelo menos três motivos para o perdão, que são fundamentais além de “difícil”. São eles:

1. O perdão é a única alternativa que pode deter o ciclo da culpa e da dor. Isso contrasta diretamente com o ressentimento (“sentir de novo”), que prende a pessoa passado, libera-o muitas vezes, arranca cada nova casca, de modo que a ferida nunca sara. O perdão oferece uma saída. Ele não resolve todas as questões da culpa e da justiça, mas permite um relacionamento renovado, que começa outra vez. Este princípio se aplica até mesmo quando uma das partes é totalmente inocente e a outra, totalmente culpada.
a) Não perdoar me aprisiona ao passado e exclui todo potencial de mudança;

      b) Nós perdoamos os outros para satisfazer a nós mesmos. Como Lewis Smedes (Apud Yancey) destaca: “A primeira e geralmente única pessoa a ser curada pelo perdão é a pessoa que perdoa… Quando genuinamente perdoamos, libertamos um prisioneiro e então descobrimos que o prisioneiro que libertamos éramos nós mesmos”.
c) Só existe uma coisa mais difícil que o perdão: O não perdoar.

2. O perdão pode aliviar a força opressora da culpa. Quando você perdoa alguém, você separa o erro da pessoa que o cometeu. Você a recria. Você não pensa nela agora como a pessoa que o feriu, mas, sim, como a pessoa que precisa de você. Em suma, o poder de cura é liberado tanto na pessoa que perdoou quanto na que ofendeu. Isso é loucura para os “justiceiros de plantão”. Esse é o poder da graça – é transformador, sobrenatural.

3. O perdão pode cortar as cordas e soltar o fardo opressivo da culpa. O NT mostra um Jesus ressurreto levando Pedro pela mão através de um ritual triplo de perdão. Pedro não precisava andar pela vida culpado, de olhos baixos como quem traiu o Filho de Deus, pois sobre as costas de pecadores transformados (como Pedro) Cristo edificou a sua igreja. O perdão quebra o ciclo da culpa e afrouxa a força opressora do pecado. Ele coloca o perdoador no mesmo lado de quem cometeu o erro.

Para concluir, Paulo deixou bem claro para os cristãos de Éfeso (e para nós, também) de que “é pela graça que somos salvos, através da fé (instrumento); e isso não vem de nós, é dom de Deus” (Ef 2:8b). Apesar disso tudo, parece que muitos cristãos evangélicos hoje precisam redescobrir a verdadeira graça de Deus. Os fracos e os pecadores precisam saber que têm um lugar de refúgio junto ao trono da graça. Na carta aos Hebreus somos convidados para nos achegarmos ao trono, com confiança e ousadia, a fim de sermos ajudados em nossas fraquezas enquanto houver oportunidade (Hb 4:15, 16).

Se vivermos pela graça como nos ensina a Bíblia, então não precisaremos mais viver na busca da meritocracia cristã. O cristão que conheceu a graça de Deus e por ela foi tocado age movido pela graça, sem obrigações e sabendo que não vai lucrar nada com o que está fazendo… Mas simplesmente o faz. Faz por que se sente livre… Faz pela graça!

O cristão que foi alcançado pela graça vive a vida sabendo que é alvo do amor cego de um Pai amoroso (Deus), que se alegra pelo filho arrependido; sabe que a graça não é calculada pelo salário de um trabalhador, mas pelos dons gratuitos e pela multiforme graça de Deus. Quem vive pela graça perdoa, porque sabe que foi perdoado por Deus de ir para o inferno.

Quem vive pela graça exala o cheiro da graça. #QueTenhamosUmaVidaCheiaDaGRAÇA!

Por Linaldo Lima
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REFERÊNCIAS:

1. ROMEIRO, Paulo. Decepcionados com a Graça: esperanças e frustrações no Brasil neopentecostal. São Paulo-SP: Mundo Cristão, 2005;

2. YANCEY, Philip. Maravilhosa Graça, São Paulo-SP: Vida, 1999;

3. BARCLAY, Willian. A Carta de Efésios. Buenos Aires, Argentina: La Aurora, 1983;

4. JAMES, Kim. Bíblia de Estudo Atualizada. Versão KJA. 2001-2011 v1. 2 – Disponível no aplicativo Bible Analyser 4.

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