Por Linaldo Lima [1]
Confesso que essa é uma daquelas perguntas que surgem quando levamos a Bíblia realmente a sério. Não nasce da incredulidade, mas da leitura atenta. Em uma de minhas leituras em Êxodo 20, me deparei com algo que talvez você também já tenha percebido: os Dez Mandamentos não dizem, de forma direta, “amarás a Deus sobre todas as coisas” nem “amarás o teu próximo como a ti mesmo”.
Isso me levou a refletir — e talvez seja a sua dúvida também: Se essas palavras não aparecem no Decálogo, como Jesus pôde afirmar que toda a Lei se resume justamente nesses dois mandamentos?
Essa pergunta não é pequena. Ela toca na relação entre Lei, amor, obediência e revelação progressiva das Escrituras. É justamente isso que pretendo responder neste artigo.
1 Os Dez Mandamentos não ignoram o amor — eles o pressupõem.
Os Dez Mandamentos não foram dados como um código moral frio ou meramente jurídico. Eles fazem parte da aliança de Deus com o seu povo e revelam como o amor se manifesta na prática. A própria estrutura do Decálogo já aponta nessa direção.
A primeira tábua da Lei (mandamentos 1 ao 4)
Os quatro primeiros mandamentos regulam o relacionamento do homem com Deus:
- Não ter outros deuses;
- Não fazer ídolos;
- Não tomar o nome do Senhor em vão;
- Guardar o dia do Senhor.
Isso descreve, em termos práticos, o que significa amar a Deus acima de todas as coisas.
A segunda tábua da Lei (mandamentos 5 ao 10)
Os seis mandamentos seguintes tratam do relacionamento com o próximo:
- Honrar pai e mãe;
- Não matar;
- Não adulterar;
- Não furtar;
- Não mentir;
- Não cobiçar.
Aqui vemos o amor ao próximo regulamentado em ações, palavras e até desejos.
? Portanto, o amor está presente no Decálogo de forma implícita e normativa, mesmo sem aparecer como fórmula conceitual.
2 O amor já estava claramente revelado na Lei de Moisés.
Outro ponto fundamental é lembrar que o mandamento do amor não surge apenas no Novo Testamento. Em Deuteronômio 6.4-5, o Senhor ordena: “Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o coração…” E em Levítico 19.18, lemos: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.”
Esses textos mostram que:
- Êxodo 20 apresenta a forma da obediência.
- Deuteronômio e Levítico apresentam o princípio que sustenta essa forma.
Jesus, portanto, não cria um novo mandamento, mas retoma aquilo que já estava na própria Lei.
3 Jesus resume a Lei, não a corrige nem a substitui
Quando Jesus afirma que toda a Lei e os Profetas dependem do amor a Deus e ao próximo, Ele não está “corrigindo” Moisés. Em Mateus 22.37–40, Jesus faz algo essencial: Ele revela a essência da Lei.
Enquanto o Decálogo mostra como viver, Jesus mostra por que viver assim. O amor é a raiz; a obediência é o fruto.
4 Paulo confirma: o amor é o cumprimento da Lei
O apóstolo Paulo ecoa exatamente o mesmo ensino, quando diz que toda a Lei se resume em “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” (Rm 13.9-10; Gl 5.14). Paulo não coloca Lei e amor em lados opostos. Ele mostra que o amor é o cumprimento da Lei, não a sua negação.
5 O Decálogo e Cristo: onde a Lei encontra seu cumprimento
Aqui é importante dar um passo além. O Decálogo revela o padrão santo de Deus, mas também expõe algo desconfortável: ninguém consegue cumpri-lo perfeitamente. É exatamente nesse ponto que a Lei aponta para Cristo.
A Escritura afirma que: “O fim da Lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10.4). Cristo, então:
- Cumpriu perfeitamente aquilo que a Lei exige;
- Viveu o amor a Deus e ao próximo sem falhas;
- Assumiu, na cruz, a condenação de quem quebra a Lei.
O Decálogo nos mostra o padrão. Cristo nos oferece a justiça que não conseguimos produzir. Assim, a obediência cristã não nasce do medo da Lei, mas da gratidão pela obra de Cristo.
Conclusão
Os Dez Mandamentos não concorrem com o mandamento do amor. Eles o explicam. Jesus não aboliu o Decálogo. Ele o resumiu. E Cristo não anulou a Lei. Ele a cumpriu.
Por isso, quando Jesus diz: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14.15). Ele nos chama a uma obediência que nasce do amor, sustentada pela graça e vivida no poder do Espírito.
Se você já se perguntou se a vida cristã é apenas um conjunto de regras ou apenas um discurso sobre amor, a resposta bíblica é clara: o verdadeiro amor sempre produz obediência, e a verdadeira obediência só é possível quando passa por Cristo.
“Nós o amamos porque Ele nos amou primeiro.” (1Jo 4.19).
Que Deus te abençoe!
[1] Pastor auxiliar da Igreja Batista Missionária El-Shaday. Casado com Macrina Lima e pai de Letícia Lima. É Bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Batista Nacional (SETEBAN-PE). Bacharel em Administração de Empresas pelo Centro Universitário Maurício de Nassau (UniNassau). Pós-Graduado em Pregação Expositiva pelo Seminário Teológico Batista Nacional de Pernambuco (SETEBAN-PE) e atualmente é Mestrando em Estudos Históricos-Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (CPAJ).

Enquanto lia, fui levada de volta aos dias que vivi na UTI com minha neném. Não foi a força, nem o entendimento, nem a tentativa de “fazer tudo certo” que me sustentaram ali — foi o amor de Deus. Foi permanecendo nesse amor que consegui atravessar cada dia, porque, como a Palavra diz, o perfeito amor lança fora todo medo. Jesus não resumiu a Lei para torná-la mais simples, mas para nos lembrar de onde tudo começa: do amor que nos guarda quando já não temos mais nada além d’Ele. Esse texto me fez agradecer e descansar novamente nisso. Obrigada pastor Linaldo.