O privilégio de obedecer ao chamado de Deus, conforme o texto de Atos 8: 36 – 39.
Por Linaldo Lima [1]
Durante esta conferência, já fomos conduzidos pelos primeiros movimentos dessa narrativa. Vimos que a missão pertence a Deus e que todo discípulo participa dela. Também vimos que a missão acontece no cotidiano, muitas vezes em situações aparentemente comuns: uma estrada, uma carruagem, uma conversa, uma pergunta.
Agora chegamos ao final da história. Até o versículo 35, Filipe foi conduzido pelo Espírito, aproximou-se do eunuco, ouviu sua leitura de Isaías e, começando naquela passagem, “pregou-lhe o Evangelho: Jesus”. É importante perceber isso: o texto que vamos expor hoje não começa com o batismo. Começa com Cristo sendo anunciado.
O eunuco era um homem importante. Alto funcionário de Candace (que não é uma pessoa, mas o título da rainha-mãe da Etiópia), responsável pelo tesouro real, possuía posição, influência e recursos. Entretanto, sua condição de eunuco o colocava, à luz da antiga legislação de Israel, numa situação de limitação religiosa (Dt 23.1). Ele havia ido a Jerusalém para adorar e voltava lendo Isaías, mas ainda precisava compreender que o Servo Sofredor de Isaías 53 era Jesus.
Então Filipe anuncia Cristo. E é exatamente depois disso que o homem olha para a água e pergunta: “Eis aqui água! Que me impede de ser batizado?” (At 8.36b). Esta pergunta fornece o tema da mensagem. Mas ela não é apenas uma pergunta sobre batismo.
Ela introduz o movimento final de uma história na qual veremos (1) a graça derrubando barreiras, (2) a fé respondendo em obediência, (3) o Espírito conduzindo a missão e (4) o evangelho produzindo alegria.
E, ao encerrarmos esta conferência, talvez a pergunta também precise ser dirigida a nós: O que nos impede de participar plenamente da missão que Deus está realizando?
1- Quando Cristo é anunciado, a Graça remove os impedimentos (At 8.36)
A pergunta do eunuco é significativa, pois o verbo traduzido por “impede” traz a ideia de colocar obstáculo, proibir, impedir alguém de avançar. E isso ganha ainda mais força quando lembramos quem está perguntando. Esse homem conhecia barreiras – era etíope e eunuco. Ele tinha prestígio na corte, mas carregava uma condição que lhe trazia limitações dentro da antiga ordem religiosa de Israel.
Por isso, sua pergunta parece carregar algo maior. Em outras palavras, ele diz: “Depois de tudo o que ouvi sobre Jesus, ainda existe alguma coisa que me mantenha do lado de fora?”
E aqui aparece uma das belezas dessa narrativa. O etíope estava lendo Isaías 53, o capítulo do Servo Sofredor. Mas poucos capítulos depois, Isaías anuncia que chegaria o dia em que o eunuco não deveria mais dizer: “não passo de uma árvore seca” (Is 56.3). Deus promete acolhimento e um “nome eterno” aos que se apegassem à sua aliança.
Em Atos 8, aquilo que Isaías anunciou começa a se tornar visível. Cristo está formando um povo que ultrapassa antigas barreiras. A graça está alcançando quem estava distante. A missão extraordinária de Deus não respeita as fronteiras que nós, tantas vezes, levantamos.
A verdade do texto é que o eunuco não encontrou aceitação porque era rico; não foi recebido porque ocupava um cargo importante; tampouco foi incluído porque havia viajado até Jerusalém. Ele encontrou esperança porque Cristo lhe foi anunciado.
A boa notícia é que aquilo que nos separa nunca é maior do que a obra daquele que morreu pelos pecadores. Por isso, igreja, tenhamos cuidado para não escolher antecipadamente quem pode ou não ser alcançado.
Não devemos olhar para alguém e dizer: “esse não tem mais jeito”; “essa pessoa nunca mudará”; “esse tipo de gente nunca aceitará o evangelho”. Lembre-se que Filipe viu um estrangeiro e Deus estava alcançando uma alma.
Portanto, nessa primeira parte aprendemos que a missão extraordinária começa quando enxergamos pessoas como alvos da graça, e não como obstáculos ao nosso conforto.
2- Quando a fé é verdadeira, ela responde com obediência (At 8.36-38).
Observe a sequência: Filipe explicou a Escritura + Filipe anunciou Jesus + o eunuco ouviu… Creu… E respondeu. Perceba que o evangelho não produziu apenas informação; ele produziu movimento.
O homem manda parar a carruagem, desce às águas e é batizado. O batismo não aparece aqui como instrumento que produz salvação, mas como resposta pública daquele que foi alcançado pela mensagem de Cristo. E o próprio capítulo nos ajuda a compreender isso, porque Simão, o mágico, também havia sido batizado. Mas depois Pedro lhe disse: “Teu coração não é honesto perante Deus.” (At 8.21).
Portanto, esse texto de Atos 8 nos apresenta dois homens batizados, mas com respostas espirituais profundamente diferentes. Simão estava fascinado pelo poder, enquanto que o eunuco estava respondendo a Cristo. Isso nos lembra que nenhum rito exterior substitui um coração alcançado pela graça.
Agora perceba uma verdade magnífica nesse texto. Há uma pequena frase que merece a nossa atenção: “deu ordem para que parassem a carruagem.” (v.38a). Para obedecer, aquele homem precisou interromper seu caminho. E talvez seja justamente aí que essa passagem nos confronte.
Há momentos em que obedecer a Deus significa parar alguma coisa. Pode ser parar uma agenda, parar um projeto, parar uma desculpa, parar uma resistência; ou parar de adiar aquilo que Deus já deixou claro. Por isso, não termine esta conferência apenas admirando missões.
Se Deus está chamando você para servir, sirva. Se está chamando você para evangelizar alguém, fale. Se precisa reconciliar-se, reconcilie-se. Se precisa assumir um compromisso com Cristo, assuma-o. Se Deus estiver chamando você para atravessar fronteiras, esteja disponível. Porque a fé que ouve Cristo precisa estar preparada para obedecer a Cristo.
3- Quando participamos da missão, descobrimos que ela pertence a Deus (At 8.39a).
Aqui a narrativa muda completamente. Filipe simplesmente sai de cena, o que acaba sendo surpreendente, tendo em vista que, até então, a nossa percepção era a de que ele era indispensável. Foi Filipe quem obedeceu; foi ele quem correu até a carruagem; foi ele quem fez a pergunta. Foi Filipe quem explicou Isaías e anunciou Jesus, como também foi ele quem batizou. Mas agora o Espírito o retira dali.
Isso nos mostra algo essencial: Filipe nunca foi o protagonista. Observe como o Espírito enquadra a narrativa: No versículo 29, o Espírito diz a Filipe: “aproxima-te…”. Já no versículo 39, temos: “o Espírito do Senhor, de repente, arrebatou a Filipe.” O Espírito está ANTES e DEPOIS do encontro, enquanto que Filipe está no MEIO como instrumento obediente.
Essa é uma das grandes lições missionárias desse texto. Ela nos ensina que nós participamos da missão, mas a missão não depende de nós. Filipe até podia explicar as Escrituras, anunciar Cristo e batizar; mas não podia regenerar aquele homem. Somente Deus podia fazer isso.
Essa verdade do texto nos livra de dois perigos: Primeiro, do orgulho quando vemos resultados. Segundo, do desânimo quando não vemos resultados.
Somos responsáveis pela fidelidade, mas Deus é soberano sobre os frutos. Talvez você participe apenas de um pequeno trecho da história de alguém. Então, seja fiel nesse trecho.
Talvez você plante e outro colha. Então, seja fiel no plantio. Talvez você ore e outra pessoa esteja presente no momento da conversão. Então, seja fiel na oração. Talvez você discipule alguém que depois será enviado para um lugar onde você jamais irá. Então, seja fiel nesse discipulado.
A verdade é que a missão não precisa preservar nosso nome. Ela precisa exaltar o nome de Cristo.
4- Quando Cristo é encontrado, a alegria continua pelo caminho (At 8.39b).
Lucas termina o texto dizendo: “O eunuco não o viu mais, contudo, pleno de alegria, seguiu o seu caminho.” Ou seja, Filipe desapareceu, mas a alegria permaneceu. Por quê? Porque aquele homem não tinha se convertido a Filipe; ele havia encontrado Cristo. A sua alegria não dependia do evangelista, mas do Salvador que o evangelista anunciou.
E aqui, o texto de Atos 8 forma uma bela moldura. No versículo 8, depois da evangelização de Samaria, temos o seguinte: “grande alegria sobreveio àquela cidade.” Agora, no versículo 39, temos: o eunuco “pleno de alegria, seguiu o seu caminho”. Ou seja, no começo temos a alegria de uma cidade; no final, a alegria de um homem.
O evangelho alcança multidões, mas também alcança indivíduos. Ele chega a Samaria e chega ao deserto; chega a quem está perto e começa a avançar para além das fronteiras de Israel… Até chegar a nós! Estamos vendo Atos 1.8 se cumprindo diante dos nossos olhos: Jerusalém – Judeia – Samaria – E o movimento em direção aos confins da terra.
APLICAÇÕES PRÁTICAS
(1) Pare de decidir quem pode ser alcançado. Olhe para as pessoas com os olhos da graça. Pregue a Cristo ao improvável. Não transforme preconceitos, experiências ruins ou diferenças culturais em barreiras que Deus não colocou.
(2) Responda à Palavra com Obediência. Não termine essa leitura apenas dizendo que o conteúdo foi bom. Termine-a perguntando-se: O que Deus está exigindo de mim? E faça… Porque a fé verdadeira responde.
(3) Disponibilize-se para o Envio. Talvez Deus use você perto, ou talvez longe. Não fabrique um chamado extraordinário, mas também não feche a porta caso Deus o faça. Diga sinceramente: “Senhor, se quiseres me enviar para além do familiar, estou disponível.”
(4) Anuncie a Cristo, não a si mesmo. Lembre-se que Filipe desapareceu, mas Cristo permaneceu. Que as pessoas possam esquecer nosso nome e ainda assim continuar seguindo Jesus. Esse é o sucesso da missão.
(5) Amplie a sua visão missionária. Sua casa importa, sua rua importa, sua cidade importa; mas o Reino de Deus é maior. Ore pelas nações, contribua, envie, sustente, prepare. E, se Deus te chamar: vá.
Conclusão
O texto de Atos 8.36-39 começa com a pergunta “Que me impede?” e termina com um homem seguindo o seu caminho “cheio de júbilo”. Entre a pergunta e a alegria encontramos quatro verdades: A graça remove barreiras; a fé responde em obediência; o Espírito conduz a missão soberanamente; e Cristo produz alegria permanente.
É isso que torna essa missão extraordinária. Não porque Filipe fosse extraordinário, ou porque o eunuco fosse extraordinário. Mas porque o Deus extraordinário da missão decide envolver pessoas comuns em Sua obra soberana. E isso é um privilégio.
Agora, ao encerrarmos esta conferência, a pergunta volta para nós. O eunuco perguntou: “Que me impede de ser batizado?” Eu quero te perguntar: O que impede você de participar de uma missão extraordinária? É medo? Conforto? Agenda? Carreira? Recursos? Preconceito? Insegurança? Apego ao conhecido?
Talvez Deus não esteja chamando você para outro país. Mas talvez esteja colocando alguém ao seu lado amanhã. Talvez o seu campo missionário seja uma casa, uma empresa, uma escola, uma comunidade, talvez outra cidade, outra cultura. E talvez, para alguém aqui, sejam realmente as nações.
Não precisamos sair daqui dizendo: “Senhor, manda-me para qualquer lugar.” Precisamos sair dizendo algo ainda mais profundo: “Senhor, minha vida está disponível para Ti.” E então deixar que Ele determine o lugar. A resposta de Filipe foi simples: “Ele se levantou e partiu.” (At 8.27).
Que esta seja também a resposta desta igreja. Quando Deus disser: “Levanta-te e vai”, que Ele encontre pessoas dispostas a levantar-se e partir. Porque Cristo continua salvando, o Espírito continua conduzindo; a Palavra continua poderosa. E enquanto Jesus não voltar, a missão continua.
Não apenas admire uma missão extraordinária. Abrace o extraordinário privilégio de participar dela. Que Deus nos abençoe!
[1] Pastor auxiliar da Igreja Batista Missionária El-Shaday. Casado com Macrina Lima e pai de Letícia Lima. É Bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Batista Nacional (SETEBAN-PE). Bacharel em Administração de Empresas pelo Centro Universitário Maurício de Nassau (UniNassau). Pós-Graduado em Pregação Expositiva pelo Seminário Teológico Batista Nacional de Pernambuco (SETEBAN-PE) e atualmente é Mestrando em Estudos Históricos-Teológicos pelo Centro Presbiteriano Andrew Jumper (CPAJ).
Referências:
KISTEMAKER, Simon J. Comentário do Novo Testamento – Exposição de Atos dos Apóstolos Vol. 1. 2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2017. Trad. Valter Graciano Martins. Original em inglês: The New Testament Commentary, Exposition of the Acts of Apostles (1975).
LIMA, Linaldo. A Missão irrefreável do evangelho em dois momentos. Sermão disponível em texto em 04/09/2025. Acessado em 08/09/2026.
BÍBLIA. Bíblia King James Atualizada. Tradução João Ferreira de Almeida. 1. Ed. São Paulo: Abba Press, 2011.
